Na semana passada escrevi sobre os novos movimentos de Run Clubs – corrida matinal seguida de festa numa espécie de discoteca às dez da manhã –, que estão a juntar muitos jovens. Não há bebidas alcoólicas, tabaco ou outros vícios. Assim que a crónica surgiu nas redes sociais, recebi dezenas de mensagens muito positivas e construtivas, umas a concordar e outras a mostrar o “outro lado da moeda”.Fui pesquisar e rapidamente concluí que esta malta mais nova sofre de uma espécie de esquizofrenia geracional. Se há uma fasquia que faz desporto porque sabe da sua real importância, há outra que só o faz para ter conteúdo para divulgar nas redes sociais e haverá outra que nem faz uma coisa, nem outra. Mas vou focar-me nesta parte da Geração Z, que só veste roupa desportiva para alimentar o seu feed de Instagram, atrair marcas que lhes oferecem equipamento se “postarem” e outras que ganham a vida assim – a simular o que não são, nem fazem.O pior, parece-me, é os que ainda arriscam em dar conselhos sobre treino ou nutrição quando não estão minimamente preparados para tal. Mas esse é um assunto que deixo para uma futura crónica...De acordo com o relatório anual sobre tendências desportivas da aplicação Strava, os jovens da Geração Z estão cada vez mais a transformar o exercício físico numa experiência social. Correr, levantar pesos ou caminhar já não é apenas uma atividade individual, é também uma forma de conhecer pessoas, criar comunidades e até marcar encontros.Até aqui tudo bem. Mas, no mesmo relatório, também ficou demonstrado que a estética do esforço é mais importante do que o esforço em si. A pergunta é: mesmo nestes Run clubs, os jovens vão para fazer desporto e depois divertirem-se, ou vão sobretudo porque sabem que vão ter conteúdos para partilhar? Vou arriscar a minha opinião...Para uma parte significativa da Geração Z, o treino já não começa com um aquecimento, mas sim com a câmara do telemóvel. O ritual é simples, selfie no espelho, vídeo de dez segundos no tapete de corrida, fotografia da garrafa de água estrategicamente pousada ao lado dos halteres, depois disso, missão cumprida. Até sou tentado a pensar: pelo menos, algum desporto hão-de fazer! Mas depois fico desiludido.É certo que não se pode generalizar a toda uma geração – conheço muitos jovens que treinam imenso e consistentemente –, mas custa-me ver que muitos desvalorizarem os benefícios do desporto em si. Divulgar os treinos regularmente, a disciplina e foco de cuidar do corpo e mente, “cansa” os seguidores e não gera engagement. O que gera likes é divulgar um treino fingido no ginásio de vez em quando ou pôr aquela foto obrigatória para justificar um conteúdo pago por alguma marca. Vejo este fenómeno como uma nova forma de sedentarismo ativo. A Geração Z ousa falar de fitness, veste-se como um atleta, publica como se tivesse estudado para tal, mas treina menos do que aparenta. O exercício e o estilo de vida saudável tornou-se mais um meio para terem sucesso nas redes sociais. O ginásio tornou-se um estúdio fotográfico, onde o objetivo já não é ficar mais forte e saudável, mas sim criar conteúdo. E na lógica das redes, isso basta. Afinal, se está no Instagram, aconteceu. Mesmo que tenha durado apenas o tempo de uma fotografia.Está na consciência de cada um, é certo, mas não pode valer tudo! Está em causa a saúde física e mental, de quem publica e de quem está a influenciar. E obviamente que este tema vai mais além desta Geração Z – o que não faltam são pessoas/criadores de conteúdos/celebridades a fingirem o mesmo...