Tratar da saúde da mulher desportista

A prática regular de exercício físico traz benefícios reconhecidos para a saúde física e mental de todos. No caso das mulheres, exige uma especial atenção ao longo das diversas fases da vida.
Diana Santos Ferreira

Especialista em Medicina Desportiva e do Exercício na Clínica CUF Alvalade e no Hospital CUF Tejo

Publicado a

A saúde da mulher desportista não se limita à atleta de alta competição. Inclui também a mulher ativa, que concilia treino com exigências profissionais, académicas e familiares, procurando melhorar a sua performance, composição corporal ou condição física global. Neste enquadramento, alterações fisiológicas subtis podem refletir-se não apenas no rendimento desportivo, mas também na energia diária, na capacidade de concentração, no humor e na produtividade.

A diminuição do rendimento é frequentemente um dos primeiros sinais de desequilíbrio. Podem surgir dificuldades na recuperação, fadiga persistente, redução de força ou resistência, maior incidência de lesões, alterações do ciclo menstrual e perturbações do sono. Estes sinais traduzem, muitas vezes, um desajuste entre a carga de treino, a disponibilidade energética, a recuperação e o stress global. O conceito de RED-S (Relative Energy Deficiency in Sports), descrito pelo International Olympic Committee, vem ampliar e substituir o anterior “síndrome da tríade feminina” e reforça que a energia disponível é determinante não apenas para a performance, mas para o normal funcionamento a nível multissistémico.

Quando o equilíbrio energético e hormonal é comprometido, podem ocorrer alterações na função reprodutiva, na saúde óssea, no metabolismo, na função tiroideia, no sistema imunitário, na regulação do humor e no desempenho cognitivo. A atleta ou mulher ativa pode manter níveis elevados de exigência, e apresentar progressiva dificuldade em sustentar esse ritmo, com impacto no desempenho global, seja desportivo, profissional ou social.

Importa salientar que muitas mulheres acompanhadas em contexto clínico não são atletas profissionais, mas apresentam cargas de treino elevadas que se associam a sono insuficiente, restrição alimentar e stress significativo. A combinação destes fatores aumenta o risco de desregulação fisiológica. A monitorização clínica permite distinguir adaptações esperadas ao treino de sinais precoces de disfunção metabólica e hormonal.

A monitorização da mulher que pratica desporto deve ser contínua e individualizada, incluindo avaliação clínica global, análise da carga de treino, estado nutricional, história menstrual, avaliação da saúde óssea quando indicado e rastreio de fatores psicológicos e contextuais. Esta abordagem permite identificar riscos, acompanhar a adaptação ao treino e implementar medidas preventivas de forma atempada.

A Medicina Desportiva assume um papel central neste processo pela sua capacidade de integrar dados clínicos, funcionais e fisiológicos, possibilitando enquadrar alterações do rendimento na fisiologia do exercício, identificar sinais de maladaptação e coordenar intervenções multidisciplinares de forma estruturada.

O acompanhamento eficaz exige articulação entre diferentes especialidades médicas além da Medicina Desportiva como a ortopedia, medicina física e de reabilitação, ginecologia, endocrinologia e cardiologia, entre outras, bem como com outras ciências da saúde, das quais se destacam a nutrição, a psicologia, a fisioterapia e os profissionais das ciências do desporto. Esta integração permite decisões clínicas fundamentadas e alinhadas com os objetivos funcionais e desportivos.

A crescente exposição à informação digital sobre treino, nutrição e hormonas contribui, por vezes, para interpretações imprecisas ou a generalização de diagnósticos incorretos. A Medicina Desportiva desempenha também um papel relevante na promoção da literacia em saúde, ajudando a contextualizar sintomas e a distinguir variações fisiológicas de situações que exigem intervenção clínica.

A saúde da mulher desportista deve ser acompanhada ao longo de todo o ciclo de vida, desde a adolescência à idade adulta, incluindo a maternidade, a transição hormonal associada à perimenopausa e menopausa - e o envelhecimento ativo. Cada fase implica adaptações fisiológicas específicas que devem ser consideradas na prescrição e monitorização do exercício.

Promover a saúde da mulher que pratica desporto significa assegurar que a atividade física mantém o papel protetor, sustentando a performance, a função metabólica, a saúde óssea, o equilíbrio hormonal e a capacidade funcional.

Diário de Notícias
www.dn.pt