Trabalhar mais do que viver ou as contas que nunca fazemos

Margarida Vaqueiro Lopes

Editora-Executiva do Diário de Notícias

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Quando contratamos um serviço – empregada doméstica, canalizador, eletricista – sabemos que este é pago à hora. Temos essa noção plena porque, normalmente, pagamos as horas efetivas de trabalho.

No mesmo sentido, quando temos um emprego fixo, temos um salário mensal, mas temo-lo também, na maioria dos casos, discriminado por salário/hora. E quando não temos, não é difícil fazer a conta – é dividir o nosso salário pelas horas que constam no contrato de trabalho e ver quanto é que nos estão a pagar à hora. É claro que recebemos sempre menos, nesses casos, porque é como se a empresa tivesse contratado um daqueles pacotes de lavandaria, em que o custo à unidade (a hora, neste caso), sai sempre mais barato do que se for avulso.

De qualquer forma, é bom para pensarmos em quanto do nosso tempo entregamos à empresa, num país em que a cultura vigente é mais ou menos a seguinte: se chegamos a horas e saímos a horas, somos pouco comprometidos com o trabalho. É, muitas vezes, irrelevante, se o trabalho está feito como era suposto.

Em Portugal, é muito bem visto que se chegue antes da hora e que se saia depois do horário de trabalho estipulado, contra todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde ou, já agora, do bom senso.

Deixamos as crianças na escola antes das 9h, vamos buscá-las às 19h, e elas passaram horas entre aulas e as atividades extracurriculares em que as inscrevemos, porque estamos a trabalhar; não fazemos exercício por não termos tempo, não vamos ao médico, não temos tempo para fazer o jantar, para sair com os amigos, para limpar a casa, para ter atividades fora do trabalho.

Confundimos tempo de secretária com produtividade e olhamos para a regra dos terços dos nórdicos (8h para trabalhar, 8h para dormir e 8h de tempo livre) como se fosse algo inatingível. Gastamos horas (que são dinheiro) muito mal gastas porque temos, também, esta dificuldade de pensar quanto vale cada hora do nosso dia.

O salário líquido médio em Portugal situar-se-á, atualmente, entre os 1150 e os 1250 euros (tudo depende da situação fiscal de cada um, como sabemos). Ora, se dividirmos o valor máximos pelas 160 horas de trabalho que são usuais, chegamos ao incrível valor de 7,8 euros por hora. O que significa que, de cada vez que rouba uma hora de sono ao seu cérebro para trabalhar, não aumenta apenas significativamente o risco de ter doenças neurodegenativas, mas está também a considerar que o seu sono não vale mais do que esses 7,8 euros por hora.

O mesmo vale para aquela hora de exercício físico que nunca tem tempo para fazer – vale mesmo 7,8 euros? Ou um jantar com os seus amigos. O seu marido. A sua mulher. Os seus filhos. Ou simplesmente algum tempo para si no sofá, dentro daquelas 8 horas de tempo livre.

Já aqui escrevi que me parece perigosa esta cultura de associar a ideia de sucesso ao esgotamento físico e psicológico. Talvez pensar em quanto as nossas empresas consideram que vale cada hora do nosso dia nos ajude a tomar decisões mais sensatas sobre o uso que devemos fazer do nosso tempo.

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