Todos sabemos como as guerras começam...

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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A invasão russa da Ucrânia, no início de 2022, levou a várias mudanças de perceção. A primeira diz respeito à forma como se avaliava o poderio dos dois países. Com raras exceções, poucos antecipavam que a Ucrânia conseguiria resistir à ofensiva inicial russa. O fracasso de Moscovo nos primeiros meses da guerra, com as suas longas colunas militares vulneráveis aos ataques ucranianos, demonstrou uma vez mais que os conflitos armados raramente são previsíveis. Uma coisa é a força no papel; outra é o que se verifica na realidade do campo de batalha. A forma como a Ucrânia reagiu ao ataque russo foi determinante para mobilizar o apoio político, financeiro e militar do Ocidente ao longo de mais de quatro anos de guerra. Todos sabemos quando as guerras começam, mas raramente sabemos como terminam.

Outra mudança de perceção ocorrida nos últimos anos diz respeito ao risco de escalada nuclear. Em fevereiro de 2022, existia um receio generalizado de que a guerra pudesse evoluir para um confronto nuclear entre a Rússia e o Ocidente. Hoje, essa perceção parece ter sido parcialmente substituída pela convicção de que qualquer eventual confronto direto entre a NATO e a Rússia tenderia, pelo menos no início, a manter-se no plano convencional. Os cenários discutidos pelos analistas concentram-se no flanco oriental da Aliança, sobretudo na Polónia e no Báltico, partindo do princípio de que as partes - se lideradas por pessoas racionais - procurariam evitar uma escalada que levasse o adversário a recorrer às armas nucleares.

Além disso, muitos observadores acreditam que a NATO dispõe de vantagens militares significativas sobre a Rússia, sobretudo em termos económicos, tecnológicos e de capacidade militar. Ainda assim, poucos defendem que uma eventual guerra seria simples ou rápida. Mesmo aqueles que admitem uma superioridade ocidental consideram improvável qualquer tentativa de invasão do território russo ou de derrube do regime de Vladimir Putin, precisamente para evitar uma escalada nuclear.

Se, por um lado, esta realidade pode ser vista como relativamente tranquilizadora, por outro lado torna a guerra convencional mais concebível. Durante mais de oito décadas, não ocorreu qualquer confronto direto entre potências nucleares. A ideia de que, na era dos drones, da guerra eletrónica e da Inteligência Artificial, possa existir uma forma de limitar um conflito e impedir a sua escalada para o nível nuclear altera significativamente os cálculos estratégicos de todos os intervenientes.

Um aspeto particularmente relevante é o facto de a CIA e as secretas europeias terem alertado para a possibilidade de a Rússia atacar um país da NATO. Segundo esta interpretação, Moscovo não conseguiu alcançar os seus objetivos na Ucrânia devido ao apoio ocidental, pelo que quererá explorar divisões no seio da Aliança e testar a sua solidez. O raciocínio é simples e preocupante. Se a Rússia desafiasse um dos membros da NATO no flanco leste, os Estados Unidos estariam dispostos a intervir em defesa dos seus aliados? A opinião pública em países como o Reino Unido, a Alemanha e a França aceitaria os custos humanos e económicos de uma guerra contra uma potência nuclear? O certo é que, caso a Aliança falhasse em responder, seria vista como um tigre de papel.

Foto: EPA/STATE EMERGENCY SERVICE

Independentemente das verdadeiras intenções da Rússia, e independentemente de saber se existe ou não qualquer plano para atacar um país da NATO, o simples facto de este debate existir já deveria merecer a nossa atenção. A ideia de que os Estados Unidos não reagiriam a uma agressão contra a Aliança é difícil de sustentar. Mesmo que uma administração americana demonstrasse relutância em envolver-se num conflito, os compromissos assumidos por Washington, a pressão dos aliados e a dinâmica política interna poderiam tornar essa posição difícil de manter. Do mesmo modo, é difícil imaginar que as principais potências europeias permanecessem passivas perante uma agressão ao flanco oriental da NATO, uma vez que estariam em causa interesses fundamentais para a sua própria segurança.

É igualmente perigosa a ideia, hoje relativamente difundida, de que uma guerra convencional entre a NATO e a Rússia seria uma espécie de passeio no parque. A História está repleta de conflitos que, em teoria, deveriam ser curtos e decisivos, mas se transformaram em guerras longas e sem vencedor evidente. A da Ucrânia é apenas o exemplo mais recente. Um conflito generalizado na Europa provocaria destruição em larga escala e teria consequências económicas e políticas imprevisíveis. Além disso, beneficiaria outras potências. Nomeadamente a China, que poderia retirar vantagens de um prolongado desgaste simultâneo da Europa, dos Estados Unidos e da Rússia.

A situação que o nosso continente atravessa corresponde, por isso, a um jogo de alto risco e tem semelhanças com 1914 e 1939. Esperemos que o bom senso prevaleça em todos os lados e que, mais uma vez, como dizia Paul Valery, os jovens que não se conhecem não sejam obrigados a combater entre si para resolver os problemas criados por dirigentes que se conhecem demasiado bem.

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