‘The Tearoom’ e o eterno campo de batalha das identidades

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João Pedro Vale (Portugal, 1976) e Nuno Alexandre Ferreira (Portugal, 1973) estão entre os artistas mais relevantes da sua geração. Fizeram a sua formação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e são, apenas desde 2022, representados pela Galeria Cristina Guerra. Com mais de duas décadas de percurso artístico, a sua produção multidisciplinar aborda estética e tematicamente questões identitárias, de género, de sexualidade e memória queer, questionando a forma como as narrativas moldam as perceções em torno da comunidade LGBQIA+. Em 2024, assinalando 20 anos de prática artística e vida a dois, a dupla protagonizou, na Casa de Serralves, uma exposição antológica, com curadoria de Inês Grosso (Portugal, 1982), intitulada Casa Vale Ferreira, que foi, simultaneamente, um statement, fazendo coincidir o momento da inauguração com o dia do casamento de ambos. A exposição foi eleita a melhor do ano 2024 pelo Expresso.

The Tearoom (2024), obra constituída por cerca de 80 blusões customizados, espelho, chariot e cabides foi produzida, propositadamente, para essa exposição no Porto, tendo sido recentemente adquirida para a Coleção de Arte Contemporânea do Estado pelo valor de 79.950,00€.

Têm sido várias as vozes que se erguem contra esta aquisição pelo Estado Português. Os argumentos da revolta variam, mas poderíamos dizer que se trata de uma questão de confronto com as identidades (cristalizadas, reclamadas, questionadas, recalcadas, marginalizadas, não-lineares) que nos definem enquanto portugueses, enquanto coletivo. Há uma geração de críticos e de atores do sistema da arte português que, não obstante gravitarem no ecossistema centralista e lisboeta (o que, neste caso, nem se aplicaria) está vinculada a um conjunto de linguagens, narrativas e formas de pensar diacrónicas que se entrelaçam muito pouco, sequer toleram, as formas de ver e pensar do século XXI. Rejeitam a construção e afirmação de outras identidades, que não são, necessariamente, novidade, mas que desviam o foco de uma tutela das ideias feita pelos livros da História da Arte e pelos seus autores estabelecidos. E a História, como a História da Arte, para se escrever e inscrever, necessita do tempo e da distância dos dias, e nem sempre habita as urgentes e consequentes ações do presente.

As identidades são a temática transversal de todo o processo criativo de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, e os artistas sabem-nas como sistemas complexos e campos de batalha por excelência. Sabem que elas emergem, especialmente, em momentos de tensão, de conflito e que, se por um lado, buscam resistir à desintegração, por outro também definem fronteiras e funcionam como armas de arremesso, colocando-nos uns contra os outros. Em momentos em que a História abranda ou há uma aparente impressão de paz, as identidades podem silenciar-se ou perder visibilidade. Mas a História, hoje, está em tremenda aceleração.

Zygmunt Bauman (Polónia, 1925-2017) é um dos autores que melhor aborda o tema, afirmando que “o campo de batalha é o lar natural da identidade. Ela só vem à luz no tumulto da batalha, e dorme e silencia quando desaparecem os ruídos da refrega. (...) A identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa resoluta a ser devorado.”1

The Tearoom não foi a primeira obra em que a dupla utilizou blusões na sua produção artística. Race d’Ep! (2020) acompanha esta marca da estética queer com quatro casacos de cabedal sobre cadeiras que nos transportam, também, para o contexto motard. O título desta obra, anterior a The Tearoom, vem do filme de 1979 de Lionel Soukaz (França, 1953-2025) e Guy Hocquenghem (França, 1946-1988). Race d’Ep! Un siècle d’images de l’homosexualité aborda a história da homossexualidade através de imagens, começando no cunho da própria palavra homossexual, passando pelo extermínio de homossexuais nos campos de concentração e chegando até aos engates nos urinóis públicos de Paris, sem antecipar, contudo, aquela que viria a ser a fase mais conturbada do século XX para a comunidade LGBTQIA+, com os primeiros casos de VIH/SIDA, a partir de 1981. Ambos os realizadores foram figuras importantes no movimento ativista e cultural queer francês, associados à Frente Homossexual de Ação Revolucionária (FHAR) e à revista Gai Pied.

O quadro de referências é uma constante em toda a obra de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, tornando fascinante a descoberta da sua produção e adensando a dimensão política e até ativista do trabalho. São referências que vão do cinema à literatura, passando pela História da Arte e pela memória queer, mantendo um olhar atento às identidades locais e aos contextos de apresentação de cada obra e de cada exposição.

Em 2024, na Casa de Serralves, decidem repetir o exercício de customização dos blusões, convidando os públicos a vestir os mesmos e a colocar-se no lugar do outro. Na verdade, quando falamos de arte interativa, de participação comunitária ou de ativação da exposição, não deveríamos estar a falar apenas e só de tecnologia e da interface que o digital permite. Vestir um blusão assemblado de imagens carregadas de simbologia e de estórias de opressão e liberdade, e contemplar uma exposição com essa nova pele, não só é altamente interativo, como político.

O Estado Português adquiriu uma obra de arte de enorme qualidade e pertinência, de uma dupla de artistas que representam a voz de uma geração e que têm um percurso sólido e de enorme coerência e persistência. Num tempo tão turvo, marcado pelo ódio e pela discriminação, deveria encher-nos de esperança que tenha sido possível ver para lá do óbvio e fazer futuro.

 
 
1BAUMAN, Zygmunt. “Identidade”. Entrevista com Benedetto Vecchi. Zahar, 2005. Págs. 83 e 84.

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