Ter uma casa tornou-se um luxo?

Eduardo Teixeira

Economista e deputado à Assembleia da República pelo Chega

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Comprar ou arrendar casa em Portugal deixou de ser apenas uma preocupação. Para milhares de portugueses, tornou-se um verdadeiro problema sem solução à vista. Sobretudo para os mais jovens, que trabalham, descontam, cumprem as suas obrigações e, ainda assim, olham para o mercado e perguntam: como é possível pagar estes valores?

Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. No segundo trimestre de 2026, os preços da habitação aumentaram 16,5% face ao mesmo período do ano anterior. Nas casas já existentes, a subida chegou aos 18%. E enquanto os preços continuam a crescer, o número de transações caiu 6,4%.

É difícil encontrar melhor retrato de um mercado cada vez mais distante da capacidade financeira das famílias.

A realidade sente-se todos os dias. Um jovem que queira sair de casa dos pais enfrenta rendas que consomem uma parte significativa do salário. Um casal que queira comprar a primeira habitação depara-se com preços elevados, entrada inicial, impostos e prestações que condicionam todo o orçamento familiar. Mesmo quem já comprou não está imune: em agosto, a prestação média do crédito à habitação atingiu 418 euros, mais 24 euros do que um ano antes.

Não podemos normalizar isto.

Ter uma casa não pode transformar-se num privilégio reservado a quem herdou património ou tem rendimentos muito acima da média. E muito menos podemos aceitar que uma geração inteira adie a sua independência, a constituição de família ou até a decisão de permanecer em Portugal porque simplesmente não consegue encontrar uma casa que possa pagar.

O diagnóstico começa a ser consensual: falta oferta. Mas reconhecer o problema não chega. É preciso construir, reabilitar e colocar casas no mercado. É preciso reduzir burocracia e acelerar licenciamentos. É preciso aliviar a carga fiscal associada à habitação e criar condições para que o investimento privado aumente a oferta, em vez de o afastar.

E há outra questão que não pode ser ignorada: o património público.

O próprio Estado concluiu já o levantamento de cerca de 60 mil imóveis e pretende chegar aos 80 mil até ao final de 2026. O Governo admite diferentes destinos para esse património, incluindo alienação, transferência para autarquias ou transformação em habitação acessível.

Num país mergulhado numa crise de habitação, cada imóvel público com potencial habitacional obriga-nos, por isso, a fazer uma pergunta simples: serve melhor o interesse público sendo vendido ou sendo colocado ao serviço das famílias?

Não defendo que todo o património do Estado tenha de ser convertido em habitação. Defendo, sim, que essa avaliação deve ser feita antes de qualquer alienação. Quando faltam casas, o Estado não pode comportar-se como se o seu património imobiliário fosse apenas uma linha num balanço.

Temos defendido também medidas fiscais que permitam aumentar a oferta e aliviar as famílias, desde a redução da tributação associada à construção até ao reforço das deduções das despesas com habitação. E a habitação pública deve chegar a quem efetivamente precisa dela, com critérios claros, fiscalização e responsabilidade.

Portugal precisa de um verdadeiro choque de oferta, público e privado.

Porque uma casa é mais do que quatro paredes. É onde se começa uma vida independente, onde se constrói uma família e onde se cria estabilidade.

Quando trabalhar já não chega para conseguir comprar ou alugar uma casa, não temos apenas uma crise de habitação. Temos um problema de futuro.

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