As famílias portuguesas vão ter tempos difíceis pela frente. O país que saiu – bastante afetado – de um comboio de tempestades em finais de janeiro e fevereiro, deparou-se um mês depois com uma crise no Médio Oriente que lançou o caos nos mercados do petróleo e do gás natural, fez disparar a inflação e soar os alarmes no Banco Central Europeu (o que mais nos interessa e afeta), que já admite começar a subir gradualmente as taxas de juro a partir de junho e até ao final do ano.As famílias portuguesas, aliás, já estão a sentir tempos difíceis. Como se pode perceber no trabalho que publicamos na edição de hoje do Diário de Notícias, o Banco Alimentar – em si mesmo um barómetro das dificuldades dos mais desfavorecidos – até estava a registar uma rota estável de pedidos de apoio nos primeiros três meses do ano. Só que, em abril e maio, os pedidos aumentaram fortemente, acompanhando a subida dos custos da energia, do cabaz alimentar e da habitação. Até aqui, nem se estranha muito. Afinal de contas, como diz a presidente do Banco Alimentar, Isabel Jonet, “a fome é sempre uma das primeiras consequências das crises”..O sinal de alerta é outro. Estão a aumentar os pedidos das Instituições de Solidariedade Social (as IPSS). O que significa que um dos setores que funciona como a primeira linha de ajuda aos mais necessitados está a recorrer a ajuda de que antes não precisava. À qual não recorria mesmo em situações de crise económica ou catástrofe.As famílias portuguesas vão ter tempos difíceis pela frente. Porque não se prevê melhorias nos vários fatores que contribuem para esta situação. Pelo contrário.Apesar das negociações, promessas de acordo e bombardeamentos por falta dele, o impasse no Estreito de Ormuz está longe de terminar. Ontem, 89 dias depois do início do conflito no Irão, passaram pelo estreito quatro navios (presumivelmente petroleiros), quando num dia normal passariam mais de 100. Este fluxo raquítico não vai retirar pressão ao preço do barril de petróleo, atualmente perto dos 90 euros (contra os 65 a 72 antes da guerra).Isto levou os empresários portugueses a afirmarem que, em setembro, vão ter de subir ainda mais os preços. Ou seja, o cabaz alimentar vai subir ainda mais.Isso agrava a inflação, o que vai obrigar a mexidas nas taxas de juro. E isso leva a aumentos da prestação mensal que os proprietários em Portugal pagam pela sua casa (já de si inflacionada pelo disparo no mercado da habitação nacional dos últimos anos).."É nos momentos em que as sociedades vivem em maior desespero – sobretudo devido ao elevado custo de vida – que os extremismos, de esquerda ou de direita, mais proliferam.”.O que os portugueses têm pela frente, portanto, é uma “tempestade perfeita”. Destes três fatores – custo da energia, habitação e cabaz alimentar –, o Governo só pode intervir rapidamente num deles: os preços dos combustíveis (descendo ou eliminando impostos sobre a gasolina e gasóleo). No caso da eletricidade e do gás natural, não pode impor diretamente à ERSE a descida das tarifas de acesso, o que poderia baixar em alguma medida o preço.E politicamente, que consequências pode haver? Os tempos difíceis têm, historicamente, efeitos políticos decisivos. É nos momentos em que as sociedades vivem em maior desespero – sobretudo devido ao elevado custo de vida – que os extremismos, de esquerda ou de direita, mais proliferam. São esses os momentos de fragilidade em que é mais fácil culpar minorias por problemas históricos e estruturais que pouco ou nada têm a ver com elas. São esses os momentos em que a raiva se sobrepõe à razão, em que se tornam mais sedutoras as soluções totalitárias do que o desejável entendimento democrático.Uma última nota: os europeus entram nesta crise com uma guerra às suas portas, entre uma Ucrânia apoiada financeira e militarmente pela UE, contra a Rússia de Vladimir Putin. Uma Europa que se está a armar como há décadas não se via, gastando dos seus orçamentos e endividando-se para precaver-se do pior dos cenários: um alargamento do conflito no seu território. É bom que os Governos europeus – sobretudo o português – sejam muito claros a explicar o porquê e como querem gastar em mísseis e aviões de combate cada um dos euros que poderia servir para evitar as situações de pobreza que se antecipam.