As crises desencadeiam sismos políticos, económicos e sociais. E desafiam as organizações a ser corajosas e firmes no respeito pela sua identidade. Penso bastante nisso, sou muito sensível a isso. Sendo um cooperativista, presidente de uma instituição que tem multiplicado resultados nos seus últimos anos, é particularmente importante reforçar uma ideia que não tem sido facilmente entendível por alguns: a cultura está dentro do nosso plano de negócio e é o centro do que somos, o nosso mais poderoso fator de distinção, um motor de desenvolvimento da comunidade e, em consequência, da própria instituição. Numa cooperativa financeira, ao contrário de um banco comercial, o capital não é o Alfa e o Ómega. Os resultados são a consequência da partilha de valores com a nossa comunidade, do respeito pelas pessoas, pelos seus sonhos, objetivos concretos e até medos. Esta é a razão primordial para o nosso investimento na cultura, a absoluta convicção de que é o fator decisivo na relação com a comunidade, com os nossos sócios e cooperadores. Sem a cultura, sem a preocupação de podermos pensar e crescer em conjunto, de alimentar a alma e a identidade, seremos iguais aos outros. E sendo iguais aos outros, deixamos de ter razões para existir. A cultura está nos sete princípios do Cooperativismo. Está no modo como nos organizamos, na maneira como gerimos, na forma como privilegiamos a formação dos que aqui trabalham e na confiança que geramos por todos saberem que os lucros regressam à comunidade.
Mas também na canalização dos produtos financeiros para resolver problemas reais e o financiamento de negócios e projetos que os bancos globais ignoram. Somos um banco ético, fraterno e sustentado numa cultura forte. Somos multiplicadores, não extractivistas. Não somos anticapitalistas, mas preferimos definir-nos como capitalistas sociais. Somos a antítese de um esquema em pirâmide – a fraude vive para enriquecer uns à custa dos restantes, os cooperativistas são focados no desenvolvimento de todos. Todos sabemos de todos, todos temos acesso a toda a informação. Todos trabalhamos para o futuro, para as próximas gerações, também para os que nunca conheceremos.
A Caixa que dirijo é centenária, faz toda a diferença. Como um dia escreveu João Paulo II: “O Homem cria a Cultura e, através dela, cria-se a si mesmo.” É tudo isso, não é necessário acrescentar mais do que esta frase de alguém que ajudou o mundo a iluminar o caminho. Cada cooperativista que verdadeiramente o seja, respeita e protege as poupanças dos cooperados porque o dinheiro que gere pertence aos membros da comunidade. Por isso, nada é mais decisivo para uma cooperativa de crédito que a escolha das contrapartes. Todos somos fiscais de todos, aqui ninguém passa despercebido, temos a melhor auditoria interna do mundo pois somos monitorizados desde o banco de escola. Numa cooperativa não podemos fingir ser o que não somos.
No próximo dia 27 de outubro está marcada uma Assembleia Geral Extraordinária da Caixa Agrícola de Torres Vedras. Vamos, pela primeira vez na nossa história distribuir dividendos aos nossos associados e cooperantes. É uma data bonita, simbólica, um incentivo para os próximos cem anos. Com otimismo, esperança e coragem para enfrentar mares revoltos. E com a certeza de que as comunidades em que existem cooperativas fortes, são mais resilientes, solidárias e produtivas.