Sonhos de um dia de domingo

Margarida Vaqueiro Lopes

Editora-Executiva do Diário de Notícias

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Na passada sexta-feira, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o empresário Pedro Lourenço, presidente da rede de supermercados BH, uma das maiores do Brasil, afirmava que o seu sonho “é que todas as lojas fechem ao domingo”. O responsável falava na sequência da adoção da política de folga obrigatória nesse dia da semana para as 44 lojas que detém no estado do Espírito Santo, e que consta do contrato de coletivo de trabalho assinado em novembro passado.

Desde março que a empresa fecha os supermercados ao domingo naquele estado e Pedro Lourenço garante que este foi um passo positivo para todos os envolvidos: os funcionários estão mais satisfeitos porque podem passar tempo com a família e a empresa conseguiu reduzir em 10% a rotatividade dos empregados. Numa altura em que a indústria se debate com uma significativa falta de mão-de-obra – e não apenas no Brasil – este parece ser um passo no caminho certo. Os clientes foram rápidos a acomodar a mudança de horário, tendo-se registado mais compras nas sextas-feiras e sábados.

A discussão tem vários anos, em Portugal. No ano passado, PSD, CDS, Chega, PS e IL votaram contra a proposta de encerrar grandes superfícies comerciais aos domingos e feriados. Empresários e partidos mais à direita garantem que o impacto para a economia é significativo, embora seja fácil de ver que o argumento é, no mínimo, preguiçoso: Áustria, Alemanha, Dinamarca são exemplos de países onde está proibido ou é muito restritiva a abertura de espaços comerciais aos domingos e feriados. No mesmo sentido, no Reino Unido o horário de abertura aos domingos, quando as lojas abrem, é muito reduzido. Se compararmos a economia destes países com a de Portugal, podemos dizer com alguma certeza que as diferenças não está no horário de funcionamento das lojas… No mesmo sentido, numa altura em que se discute uma lei laboral que continua a endereçar problemas mais passados do que presentes, talvez fosse boa ideia olhar para o que está a ser feito no Brasil como exemplo do que devíamos fazer por cá.

Quando se fala de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, não importa olhar apenas para a quantidade de horas que se trabalha todos os dias. Também se pode promover uma melhor qualidade de vida se deixarmos os domingos para que as pessoas possam fazer algo que não seja as compras dos supermercados. Ou se deixarmos que os funcionários destes espaços tenham um fim-de-semana com a família – que ao contrário do que possa parecer, não pode folgar quando lhe apetece porque a escola e grande parte dos empregos continua a ser de segunda a sexta-feira.

Somos, por norma, muito rápidos a olhar para outros países e a apontar o que fazem de mal – sobretudo quando falamos de regiões como o Brasil, considerada ainda uma economia emergente. Mas às vezes as melhores lições vêm mesmo de onde menos esperamos. Esta, pelos vistos, vem do Espírito Santo. Se somos assim tão desenvolvidos, talvez esta seja boa hora para o provar, mostrando que sabemos replicar os bons exemplos.

Sonhos de um dia de domingo
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