Quando passámos a aplaudir o cansaço?

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Mensagens, e-mails, telefone disponível 24 horas por dia e a ideia generalizada de que todos os assuntos são urgentes. Os nossos cérebros estão a ficar esgotados, os nossos corpos mais doentes, mas o elogio da fadiga parece não abrandar.

No ano passado, o STADA Health Report, que resulta de inquéritos realizados em 23 países europeus, mostrava que mais de metade dos portugueses (61%) se sentem esgotados ou em risco de burnout. Mais de um terço (36%) tem problemas de saúde mental, mas só 3% faz terapia. Estes números, recordes de que não nos deveríamos orgulhar, têm tendido a subir. As mulheres (71%) são mais propensas a esgotamento do que os homens (60%) e há também uma diferença significativa em termos geracionais: 75% dos europeus com menos de 34 anos revelam sentimentos de esgotamento, em comparação com 71% dos 35 aos 54 anos e apenas 53% dos com 55 anos ou mais.

Os alertas têm-se multiplicado, seja por parte da Organização Mundial de Saúde, seja por parte dos profissionais e especialistas nacionais. A verdade é que vivemos em estímulo constante, com pouco tempo de descanso entre tudo o que nos capta a atenção. Vivemos em cidades sempre iluminadas e com ruído constante; temos luzes artificiais em casa, ecrãs nos telemóveis, computadores e televisões que se enchem de notificações e alertas; dormimos pouco - em Portugal, os hábitos de sono são preocupantes, com 36% dos portugueses a dormir 6 horas ou menos por noite, situando o país entre os que menos dormem na Europa.

Os custos para a nossa saúde física e mental são enormes: quadros de stress, ansiedade, esgotamento que potenciam doenças cardiovasculares, entre outras, fazem de cada uma das pessoas que sente estes sintomas uma espécie de bomba-relógio. Estamos mais irritados em casa, no trabalho, com os amigos. Tomamos remédios para limitar a ansiedade, para dormir, para acordar.

E, ainda assim, a tendência é para aplaudir o cansaço constante, a produtividade constante, o trabalho durante muitas horas. Fazer nada passou a ser visto como preguiça numa sociedade muito influenciada pelo estilo empresarial americano, que faz acreditar que semanas de 80 horas de trabalho são o caminho para uma vida feliz. Surpreendemo-nos porque cada vez mais pessoas relativamente jovens sofrem enfartes e acidentes vascular-cerebrais, mas não relacionamos o stress constante em que vivemos com essas consequências.

É preciso, urgentemente, priorizar os períodos de descanso. É preciso normalizar não responder a todas as mensagens e todos os e-mails e todos os telefonemas quando eles nos caem nos telefones e computadores. É preciso aprender a largar os telefones quando se chega a casa e voltar a apreciar estar com as pessoas sem estar a olhar para o mundo lá fora ao mesmo tempo. É preciso normalizar a necessidade de parar, respirar e não ter estímulos para que corpo e alma possam recuperar e ser sãos de novo. É preciso normalizar o sossego e o silêncio, na certeza de que são tão fundamentais para o sucesso - seja lá isso o que for - quanto o trabalho e os estímulos intensos.

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