Sofreguidão

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Há uma palavra portuguesa que descreve com precisão desconcertante o estado em que vivemos: sofreguidão. A pressa ansiosa de quem quer tudo de uma vez, sem demora, sem pausa, sem o intervalo necessário para perceber o que acabou de acontecer. Não é impaciência vulgar. É uma condição mais funda, que mistura apetite com angústia, desejo com incapacidade de fruição. E tornou-se, sem que muito nos déssemos conta, o modo dominante de existir em comum.

A sequência é conhecida. Uma notícia substitui outra antes de a primeira ter sido digerida. Um escândalo apaga o anterior sem que o anterior tenha tido resposta. Uma ideia política surge, infla, circula durante 72 horas e desaparece, não porque tenha sido refutada, mas porque chegou outra. Os media formais, em competição agreste com as redes sociais e com a produção individual de conteúdo que nunca para, aprenderam a ajustar-se a este ritmo. Não o determinaram, mas alimentam-no. A atenção é o recurso escasso e disputa-se segundo a segundo.

O paradoxo é que, em paralelo com tudo isto, nunca se falou tanto de paz interior, de mindfulness, de redução da ansiedade, de pausas necessárias. Nunca o mercado do bem-estar foi tão próspero. A semântica da harmonia tornou-se, ela própria, um produto de consumo rápido, tão sujeito à obsolescência programada como qualquer outro. Compra-se a aplicação, ouve-se o podcast, faz-se o retiro de fim de semana, e regressa-se na segunda-feira ao mesmo ritmo de antes, com a consciência tranquilizada pela ilusão de que se fez algo a respeito disso. A indústria da calma é, ela própria, um filho dileto da sofreguidão.

Os danos no plano da saúde mental são os mais visíveis e os mais estudados. Mas há uma consequência coletiva que merece atenção igualmente cuidadosa: a incapacidade crescente de ponderar. Não a incapacidade de pensar, que é coisa diferente. A incapacidade de deixar uma ideia assentar, de a confrontar com o tempo, de perceber o que ela vale depois de passada a euforia do primeiro contacto. Tudo é consumido antes de ser avaliado. Uma palavra de ordem, um projeto político, uma proposta de reforma que exija anos de maturação, um debate que precise de ser repetido e aprofundado até produzir consenso: nenhum destes processos sobrevive bem num ambiente onde a atenção coletiva tem a duração de uma bola de sabão.

A política ressente-se disto de modo particular. As propostas que exigem prazo, que implicam custos visíveis antes de produzirem resultados, que pedem a uma sociedade que adie gratificação em troca de benefício futuro, são as primeiras a perder na competição pela atenção. Vencem as que prometem efeito imediato, as que encaixam num título, as que cabem num vídeo de 40 segundos. E assim se vai estreitando o horizonte do que é politicamente possível, não por falta de ideias, mas por falta de condições para as levar a sério.

Não há receita simples para isto. Mas talvez o primeiro passo seja reconhecer o problema pelo seu nome. Somos, coletivamente, sôfregos. E a sofreguidão, ao contrário do que o mercado da serenidade sugere, não se resolve com uma aplicação.

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