Um Reitor que reprovou no estágio

Pedro Maló

Docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa (UNL) e candidato ao cargo de Reitor da UNL

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Temos assistido, sobretudo através da comunicação social e das redes sociais, ao estado de crispação que atravessa a Universidade Nova de Lisboa (UNL). As notícias sucedem-se, os comentários multiplicam-se nas plataformas digitais e a imagem que chega ao exterior é a de uma instituição em desequilíbrio interno. Sabendo-se que sou candidato ao cargo de Reitor, são muitos, fora da Universidade, os que me interpelam sobre o que verdadeiramente se passa, sobre se a UNL está, de facto, mergulhada num conflito de proporções relevantes e sobre as razões que conduziram a este momento. São perguntas legítimas, colocadas por colegas de outras instituições, por antigos alunos, por parceiros do tecido económico e por cidadãos que acompanham, com atenção, a vida das nossas universidades.

Quando uma instituição com a dimensão da UNL apresenta sinais externos de tensão, é inevitável que a sociedade se interrogue sobre os reflexos desse facto na educação, na investigação e na ligação à sociedade. Importa, por isso, deixar uma palavra de tranquilidade: a UNL continua a funcionar, com a regularidade e a qualidade que sempre lhe foram reconhecidas – o ensino prossegue, a investigação avança e a ligação à sociedade concretiza-se diariamente. O que hoje se observa na UNL é, em larga medida, próprio de uma Universidade vigorosa que atinge a maturidade – algo que, no meio académico, coincide com o meio século de existência.

Mas o que está, então, verdadeiramente em causa? Está em causa o futuro da Universidade! Está em causa a forma como a UNL se posicionará nos próximos anos, num momento em que o ensino superior atravessa profundas transformações estruturais que exigem liderança firme, visão estratégica e capacidade de mobilizar a comunidade. Não se trata, portanto, de uma disputa interna circunscrita ao quotidiano da gestão, nem de um desentendimento passageiro entre instâncias. Trata-se de saber se a Universidade dispõe das condições para enfrentar com êxito os desafios que tem pela frente.

É precisamente aqui que reside o cerne do problema. Em meu entender, a raiz da atual situação está no facto de o Conselho Geral ter eleito, para o cargo mais relevante da Universidade – o de Reitor –, uma pessoa que se tem revelado inapta para o exercício dessas funções. Em pouco tempo, o investigador Paulo Pereira (P.P.) defraudou as expectativas de uma parte muito significativa da comunidade académica da UNL. Mesmo quem inicialmente acreditou na sua capacidade de liderança reconhece hoje que a realidade ficou aquém do que se esperava. A expectativa era tanto maior quanto o anterior Reitor deixara um legado difícil, e a comunidade desejava genuinamente uma nova etapa para a UNL. Atualmente, apenas um núcleo restrito ligado ao poder, bem como um grupo mais alargado que interpreta a situação como um conflito entre as Unidades Orgânicas (UOs) e o Reitor e se recusa a ir além dessa leitura, mantém a confiança inicial.

Em apenas oito meses, este Reitor conseguiu o feito assinalável de ter contra si a quase totalidade dos Diretores das UOs. A questão legítima é saber se essa contestação tem fundamento ou se constitui mera resistência à mudança. Tomemos um exemplo concreto: as duas residências universitárias cuja construção se iniciou em simultâneo no campus da FCT/UNL. A residência gerida localmente pela direção da FCT/UNL avança a bom ritmo; a residência sob gestão direta da Reitoria está, ao invés, parada, tendo inclusive o empreiteiro retirado as máquinas do local. Está em risco efetivo a perda de uma residência universitária com um substancial cofinanciamento do PRR, por incapacidade de gestão da Reitoria.

A isto acrescem decisões tomadas com manifesto desrespeito pelos procedimentos institucionais – como a recente alteração da designação da NOVA IMS –, bem como a desconsideração reiterada do Colégio de Diretores, com avanços decisórios após votações desfavoráveis da quase totalidade das UOs, em matérias que afetam diretamente as receitas próprias destas, como sucede no caso dos emolumentos. Tudo isto num contexto em que a atual Reitoria multiplicou desproporcionadamente os seus quadros, com um número invulgar de assessores, secretariado e até um assistente pessoal – sem que daí resulte, para a comunidade, uma perceção de melhor funcionamento da Universidade. Há, pois, fundamento sólido para o descontentamento generalizado dentro da UNL.

A este quadro soma-se uma questão de fundo: o colega P.P. tem um currículo respeitável de investigador, mas há uma dimensão da liderança universitária para a qual o seu percurso o preparou pouco: o ensino de licenciatura. Toda a sua experiência docente é de pós-graduação. Em mais de duas décadas, nunca lecionou no 1.º ciclo, nem o coordenou. E o 1.º ciclo é, em muitos sentidos, o coração de uma escola académica. É no 1.º ano que se decide se um estudante prossegue ou abandona o Ensino Superior, com a transição do secundário a fazer-se com taxas de insucesso preocupantes; é nos 2.º e 3.º anos que se forja o pensamento crítico e o carácter científico-técnico que distinguem um licenciado. Noutro tempo talvez não fosse problema, mas no contexto atual, em que a Inteligência Artificial está a transformar radicalmente o modo como se ensina e se aprende, tal afigura-se problemático. O impacto será particularmente disruptivo no 1.º ciclo, onde as formas de avaliação tradicionais e os métodos clássicos de aquisição de competências entram em crise. Liderar esta transição exige experiência direta e intuição pedagógica concreta que o investigador P.P. não possui.

Perante tudo isto, os seus apoiantes têm construído várias narrativas justificativas. Uma refere que passou pouco tempo e é preciso dar mais tempo ao Reitor, esquecendo a ausência de estratégia e de competência demonstradas no tempo já decorrido. Outra apresenta o Reitor como vítima de um sistema que resistiria à mudança, ignorando que o elemento perturbador foi a mudança do Reitor e que as coisas estão já piores do que antes. Ou ainda outra invoca a legitimidade da eleição democrática passada, omitindo que o ato eleitoral de setembro último, que conduziu à eleição do investigador P.P. como Reitor, foi judicialmente declarado ilegal e, portanto, juridicamente inexistente. Todo este esforço para sustentar uma (re)eleição a todo e qualquer custo revela-se especialmente oneroso para a Universidade.

Em circunstâncias normais, o Reitor estaria eleito por quatro anos e a comunidade teria de se conformar com essa situação. Mas esta minha batalha pela legalidade deu à Universidade uma oportunidade única de reflectir, e é isto que temos estado a observar – uma enorme vontade de mudança! Olhando o conjunto, o processo decorrido correspondeu, na prática, a um período experimental do investigador P.P. no exercício do cargo de Reitor e este reprovou no estágio. Os resultados estão à vista, e o balanço é, em meu entender, claramente negativo. Resta a pergunta que importa colocar à comunidade académica e, em particular, ao Conselho Geral da Universidade Nova de Lisboa: como pode liderar-se uma Universidade contra a vontade da maioria dos seus dirigentes intermédios e da sua comunidade?

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