Saúde mental não se “trata” apenas nos serviços de saúde

Marta Isabel Matos

Assistente Social. Doutorada em Serviço Social pelo Iscte

Publicado a: 

Quando falamos de saúde mental, pensamos frequentemente em consultas, hospitais, centros de saúde, psicólogos, psiquiatras e medicamentos. Pensamos nos serviços onde se procura ajuda quando o sofrimento se torna difícil de suportar.

Mas será que a saúde mental se “trata” apenas nos serviços de saúde?

A resposta parece evidente: não.

A saúde mental começa muito antes de uma pessoa chegar a uma consulta e continua muito depois de sair de um serviço de saúde. Está relacionada com a forma como vivemos, trabalhamos, nos relacionamos e participamos na sociedade. Está presente na família, na escola, no local de trabalho, na comunidade e nas condições concretas de vida.

Uma pessoa pode ter acesso a acompanhamento psicológico ou psiquiátrico e, simultaneamente, viver numa situação de pobreza, estar desempregada, enfrentar insegurança habitacional, estar isolada socialmente ou viver num contexto familiar marcado por conflitos e violência. Pode receber cuidados de saúde, mas continuar sem condições para reconstruir a sua vida.

É neste ponto que importa alargar a nossa visão sobre a saúde mental.

Cuidar da saúde mental não pode significar apenas tratar a doença quando ela surge. Significa também criar condições sociais que favoreçam o bem-estar, a autonomia, a participação e a inclusão.

Uma criança que cresce num contexto de pobreza e exclusão social. Um jovem sujeito a bullying. Um trabalhador exposto continuamente a condições de trabalho precárias ou a ambientes profissionais marcados pelo stress. Uma pessoa idosa que vive sozinha. Uma família que não consegue garantir uma habitação adequada. Uma pessoa com doença mental que, depois de estabilizada clinicamente, continua sem emprego, sem relações sociais e sem um lugar reconhecido na comunidade.

Em todos estes casos existe uma dimensão de saúde mental que não pode ser resolvida exclusivamente através de uma consulta.

Isto não significa desvalorizar os serviços de saúde. Pelo contrário. Significa reconhecer que estes são apenas uma parte de uma resposta muito mais ampla.

A saúde mental também se promove nas escolas, através da prevenção e da criação de ambientes seguros. Promove-se nos locais de trabalho, através de condições laborais dignas e de políticas de prevenção dos riscos psicossociais. Promove-se nas comunidades, através do combate ao isolamento, da criação de redes de proximidade e do reforço da participação social. Promove-se através de políticas públicas que garantam o acesso à habitação, ao emprego, à educação, à proteção social e aos direitos sociais. Porque as condições em que uma pessoa vive – o rendimento de que dispõe, a segurança da sua habitação, o acesso ao trabalho, a existência de relações e redes de apoio e a possibilidade de exercer os seus direitos – têm impacto na sua saúde mental.

É precisamente neste território entre a pessoa e as condições sociais da sua existência que o Serviço Social assume uma intervenção própria. O assistente social não intervém apenas perante a dificuldade individual, mas também sobre as barreiras sociais que podem limitar o acesso a direitos, recursos, relações, participação e oportunidades. Habitação, emprego, proteção social, redes familiares e comunitárias e acesso aos direitos não são dimensões externas à saúde mental: fazem parte das condições que permitem às pessoas viver, recuperar e participar na sociedade.

Por isso, quando falamos de saúde mental, não devemos perguntar apenas quantos profissionais temos nos serviços de saúde.

Devemos também perguntar: que condições estamos a criar para que as pessoas possam viver com dignidade?

Porque não podemos pedir a uma pessoa que cuide da sua saúde mental quando não sabe onde vai viver no mês seguinte. Não podemos falar de recuperação sem falar de relações sociais, de participação, de autonomia e de inclusão. E não podemos falar de prevenção ignorando as condições em que crianças, jovens, adultos e pessoas mais velhas vivem diariamente.

A saúde mental é, por isso, uma responsabilidade partilhada.

É responsabilidade dos serviços de saúde, mas também das escolas, das famílias, das empresas, das autarquias, das instituições sociais e das próprias comunidades.

Precisamos de deixar de olhar para a saúde mental apenas quando existe doença.

Precisamos de começar a olhar para aquilo que acontece antes, durante e depois do contacto com os serviços de saúde.

Porque cuidar da saúde mental não é apenas tratar.

É prevenir, acompanhar, incluir e criar condições para que cada pessoa possa viver com dignidade e participar plenamente na sociedade.

Talvez esta seja uma das mudanças mais importantes de que precisamos: compreender que a saúde mental não acontece apenas dentro dos serviços de saúde.

Acontece onde as pessoas vivem.

Diário de Notícias
www.dn.pt