Falar de cancro digestivo é falar de uma doença que, infelizmente, está muito presente na vida dos portugueses. Os chamados “Big Five” são os cinco tipos de cancro digestivo com maior impacto em termos de saúde pública e mortalidade: cólon e reto, estômago, fígado, pâncreas e esófago.
Há números que nos devem fazer parar para pensar: só em 2024, estima-se que tenham sido diagnosticados em Portugal mais de 10.700 novos casos de cancro colorretal, tornando-o o tumor maligno mais frequentemente diagnosticado no nosso país. A estes juntam-se milhares de novos casos de cancro do estômago, pâncreas, fígado e esófago.
Mas por que razão estes números são tão elevados? Não existe uma única resposta. O envelhecimento da população é um dos principais fatores, uma vez que o risco de muitos destes tumores aumenta com a idade. Mas também sabemos que alguns fatores relacionados com o estilo de vida têm um papel importante: o excesso de peso e a obesidade, o consumo de tabaco e de álcool, uma alimentação desequilibrada – pobre em fibras e rica em alimentos processados – e o sedentarismo, a falta de atividade física, podem contribuir para aumentar o risco. Existem ainda fatores específicos, como a infeção por Helicobacter pylori no caso do estômago, determinadas doenças hereditárias e as doenças inflamatórias do intestino.
A boa notícia é que não estamos perante um destino inevitável! Uma parte importante da luta contra o cancro digestivo passa pela prevenção, mas outra passa por detetá-lo cedo. É aqui que os programas de rastreio e a colonoscopia assumem um papel fundamental. No caso do cancro colorretal, por exemplo, é possível identificar e remover pólipos antes de estes se transformarem em cancro. Nem todos os pólipos são perigosos, mas alguns podem ser lesões precursoras e a sua remoção pode interromper a evolução para uma doença maligna.
Por outro lado, Portugal é considerado o país da Europa Ocidental com a maior incidência e taxas mais elevadas de cancro do estômago. Da mesma forma, e aliando a realização de uma endoscopia digestiva alta de qualidade à colonoscopia total de rastreio, podemos simultaneamente detetar lesões precursoras e removê-las, bem como encontrar condições pré-malignas que careçam de vigilância e também infeção por Helicobacter pylori, que pode e deve ser tratada.
Mesmo quando já existe uma lesão cancerosa, a medicina mudou profundamente nos últimos anos. Na endoscopia digestiva, passámos de uma visão essencialmente diagnóstica para uma verdadeira capacidade terapêutica. Por isso a endoscopia digestiva deve ser considerada e foi recentemente reconhecida em Portugal. No presente, algumas lesões superficiais que no passado poderiam obrigar a uma cirurgia podem, em doentes selecionados, ser tratadas através de técnicas endoscópicas avançadas.
As técnicas mais simples são as chamadas polipectomia e mucosectomia endoscópica (EMR). Para lesões mais complexas existem técnicas mais avançadas de resseção endoscópica como a dissecção endoscópica da submucosa (ESD), que permite não só tratar a lesão, que pode ser um cancro precoce, mas também analisá-la detalhadamente para perceber se a remoção foi completa e se existem características que impliquem necessidade de tratamento adicional.
A ESD não substitui a cirurgia em todos os casos. Quando uma neoplasia é profunda, apresenta determinadas características de maior risco ou existe suspeita de disseminação para fora do órgão do tubo digestivo, a cirurgia e outros tratamentos continuam a ser fundamentais. Mas, quando a doença está limitada às camadas superficiais e reúne critérios adequados, a remoção endoscópica pode ser curativa e evitar uma cirurgia mais invasiva.
Esta é uma das evoluções que considero particularmente motivadora enquanto gastroenterologista. Frequentemente, perante uma lesão digestiva, o que vemos hoje não é apenas uma oportunidade para diagnosticar um problema, mas também para o tratar de forma minimamente invasiva, preservando tanto quanto possível a anatomia e a qualidade de vida do doente.
Por isso, neste Dia Nacional do Cancro Digestivo, a mensagem que gostaria de deixar é simples: não devemos ter medo do diagnóstico, mas de chegar tarde. Conhecer os fatores de risco, adotar hábitos de vida saudáveis, participar nos programas de rastreio e procurar avaliação médica perante sintomas persistentes são passos essenciais.
Se conseguirmos prevenir, detetar cedo e tratar de forma adequada, o futuro do cancro digestivo pode ser muito diferente – e, felizmente, já temos capacidade de o alterar.