O mapa da falta de professores é um mapa de rendas

Pedro S. Sarmento

Presidente Executivo da Fundação Âncora

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Portugal precisa de contratar cerca de 38 mil professores até 2034/35, sobretudo nos territórios onde a habitação é mais cara. Subsidiar rendas não chega: é preciso tratar a habitação como infraestrutura do sistema educativo.

Em outubro de 2025, havia 1.240 horários por preencher nas escolas públicas. O dado mais importante não era o número. Era o mapa: Grande Lisboa, Península de Setúbal e algumas zonas do Alentejo e do Algarve. A falta de docentes tem várias causas, do envelhecimento da profissão às condições da carreira. Mas a sua geografia revela um fator que continuamos a tratar como lateral: onde quem ensina não consegue viver, a escola não consegue fixá-lo.

A aritmética de um professor deslocado é simples. No final de agosto, o preço médio de um quarto em Lisboa rondava os 550 euros. O apoio extraordinário à deslocação varia entre 150 e 450 euros mensais e pode chegar aos 500 nas zonas com maior carência de docentes. O Estado paga para compensar o preço da habitação e volta a pagar para remediar a falta de professores. No segundo período de 2025/26, a Fenprof estimou que cerca de 40 mil alunos ficaram, em cada semana, sem pelo menos um docente.

Os professores não estão sozinhos nesta procura. No ano letivo de 2024/25, segundo dados da CBRE, havia cerca de 147 mil estudantes nacionais deslocados, para apenas 27.700 camas em residências estudantis públicas e privadas. Professores e estudantes disputam o mesmo mercado escasso, muitas vezes nos mesmos bairros. O sistema educativo trata a habitação como um problema privado e depois tenta corrigir publicamente as consequências.

Os subsídios são indispensáveis no imediato. Mas não constroem uma única casa. A resposta estrutural é tratar a habitação como infraestrutura educativa, tal como os edifícios escolares ou os transportes. Isso significa criar um parque permanente para professores e estudantes, junto das escolas e dos campi, com rendas baseadas nos custos e não no mercado.

Muitos municípios e instituições de ensino dispõem de terrenos e edifícios que podem ser cedidos em direito de superfície. Sobre esse solo, capital de longo prazo pode financiar a construção, com a gestão confiada a entidades cuja missão seja preservar a acessibilidade. A condição essencial é simples: estas casas devem permanecer acessíveis, sem regressarem ao mercado ao fim de uma geração.

O primeiro passo é cruzar os dois mapas: identificar os territórios onde a falta persistente de professores coincide com maior pressão habitacional e, nesses locais, lançar os primeiros projetos. Não é necessário esperar por uma solução nacional perfeita para começar.

A urgência é demográfica. Dos cerca de 122 mil docentes existentes em 2024/25, apenas 76 mil deverão permanecer ativos em 2034/35. O sistema precisará de contratar cerca de 38 mil novos professores. Em valores absolutos, as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto concentram as maiores necessidades futuras de recrutamento: precisamente dois dos mercados habitacionais mais pressionados.

Podemos continuar a financiar rendas sem criar oferta ou transformar despesa recorrente em património que fica. A escola pública começa antes da sala de aula: começa na possibilidade de quem ensina viver perto dela.

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