O caso chocante de um abusador português

Rui Boavida

Partner da Baumenberg.eu – Consultora de Assuntos Governamentais

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Tenho uma cliente que vive uma relação tóxica. Ainda não começou verdadeiramente, o que é sempre um mau sinal. Há relações que começam pelo fim. Esta começa pelos maus-tratos.

Há um dilema profissional. Digo-lhe a verdade – que o futuro ainda será pior – e perco o cliente? Ou passo eu a tratar do caso e lucro com a desgraça alheia? Digo-lhe que vai passar, que é uma fase, que todos os grandes amores têm silêncios, desprezo, fugas, promessas adiadas e pedidos de transferência bancária?

Digo-lhe que tudo vai valer a pena? E que, quando ele diz “hoje não posso estar contigo, talvez amanhã muito cedinho, se me procurares muito antes das nove", isso pode ser apenas uma maneira pouco convencional de dizer “amo-te”?

Tudo começou como começam as más relações – uma promessa de futuro. Ele também já tinha sido vítima. Uma relação abusiva, longa e complicada, cheia de  maus-tratos de quem o devia proteger. Garantiu-lhe que com eles seria diferente.

Haveria estabilidade. Paz. Algum dinheiro, mas sobretudo a tranquilidade de poder acordar e saber o que vai acontecer nesse dia. À beira-mar, com sol e, talvez, uma esplanada. Portugal, enfim.

Ela embarcou, com aquela ingenuidade comovente de quem ainda acredita. Começou a pagar casa e despesas. Até se estava a desenrascar. Arranjou trabalho, clientes e começou logo a pagar as contas dele.

Confiou.

Foi aí que ele mudou.

Quando ela lhe perguntou quando poderiam, finalmente, avançar com a vida que lhe tinha prometido, ele desapareceu. Ghosting puro.

No outro dia, ela perseguiu-o pela Grande Lisboa. Sintra. Cascais. Oeiras. Odivelas. Marquês de Pombal. Saldanha. Parque das Nações. Quando o encontrava, ele dizia que ali não podia falar. Talvez no sítio seguinte ou mais tarde. 

A vítima está desesperada. Ele pede mais, e mais, mas o dinheiro dela não estica. Em casa, tem também de pagar escolas privadas para os filhos dela, porque ele não tratou dos papéis. E seguro de saúde, naturalmente, porque ele dificulta-lhe ao máximo o acesso ao sistema público.  

Ele diz que isso não é problema dele e que a vida que lhe prometeu só lha dará quando lhe apetecer. Quando? Não diz.  Porquê? Também não. Aliás, quase nem sequer fala com ela.

Quando fala, só depois de sacrifícios, exigências, portas fechadas e sempre atrás de barreiras. Usa palavras ambíguas. Desresponsabiliza-se. Faz gaslighting. "A culpa é tua." "Devias ter feito isto e aquilo.” “Estás a mentir.” "Fizeste errado, porque não percebes nada."

E, naturalmente, pede-lhe mais dinheiro.Já.

A vítima, cujo nome não revelo por questões deontológicas e para a sua proteção, chama-se Investidor X. Paga impostos, todos e mais algum. Precisa de criar uma empresa. Para pagar mais impostos. Já pagou as taxas específicas, para além dos impostos. Há quase um ano que espera em silêncio que ele se digne registar a criatura que lhe disseram que podia nascer na hora.

O nome próprio do abusador é Instituto de Registos e Notariado.

O nome da família dele é Estado Português.

O abuso, aliás, já foi notícia neste jornal. Amanda Lima contou-o no passado dia 18: "Empresa na hora? Só daqui a alguns meses. Registos Comerciais têm mais de dois mil dias de atraso." Tanto quanto sei, não houve desmentido. 

Não é ficção, infelizmente, embora tenha todos os elementos do género: promessas de futuro, dinheiro sacado, mensagens sem resposta, silêncio, desculpas vagas, desgaste emocional.

A vítima ainda se culpa, pergunta pateticamente o que fez de errado. Eu sei que fez tudo certo. E sei que o problema é mesmo ele, e a família dele. E sei que o meu cliente não é a única vítima.

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