Não, Senhor Presidente, também não gostei do que vi. Mas receio que a nossa leitura dos acontecimentos seja diferente. Porque, se há imagens que merecem preocupação, há outras que não deveriam passar despercebidas a quem tem a responsabilidade institucional de representar todos os portugueses e defender as instituições democráticas.
Não gostei de ver um punhado de ativistas apropriar-se do espaço público, como se as ruas e as praças fossem propriedade de quem as ocupa. A liberdade de manifestação é um direito constitucional, mas não autoriza ninguém a condicionar a vida dos outros, vandalizar património coletivo ou substituir-se à comunidade.
Também não gostei de assistir a assembleias populares que parecem recuperadas do PREC, com estruturas improvisadas e grupos sem legitimidade representativa a reivindicar o direito de falar em nome de uma sociedade que nunca os mandatou. A democracia representativa terá defeitos, mas é através do voto livre e universal que se conquista legitimidade política.
Sobretudo, não gostei de ver uma reivindicação legítima – o direito à habitação – transformada num pretexto para atacar a propriedade privada, contestar o modelo económico e proclamar uma revolução socialista. Uma coisa é discutir uma crise social real; outra, bem diferente, é instrumentalizá-la para promover uma agenda ideológica.
Não gostei igualmente do papel de alguma Comunicação Social, que deixou de se limitar a informar para passar a amplificar protagonistas e movimentos, cuja representatividade está longe de demonstrada. Nem da facilidade com que se procurou transformar provocações às forças policiais numa narrativa de repressão, esquecendo que a autoridade do Estado também merece respeito.
E não podemos ignorar as responsabilidades políticas. Quem governou o país durante anos não pode agora apresentar-se como espectador indignado perante uma crise para a qual não encontrou respostas. A insuficiência de construção, a falta de oferta habitacional e a ausência de planeamento perante o crescimento demográfico agravaram um problema estrutural.
Senhor Presidente, a democracia não é propriedade de quem protesta. Pertence também a quem trabalha, a quem não se manifesta e a milhões de cidadãos que exprimem a sua vontade através do voto. A liberdade de manifestação é inegociável, mas também o são a liberdade de circulação, a proteção do património e a legitimidade das instituições eleitas.
E fica uma pergunta: se estas práticas fossem protagonizadas por movimentos de sinal político contrário, a tolerância mediática e a benevolência política seriam as mesmas? Tenho sérias dúvidas.
Não, Senhor Presidente, também não gostei do que vi. Vi uma crise social instrumentalizada, a democracia representativa contestada e a liberdade invocada para justificar comportamentos que limitam a liberdade dos outros.
Porque, quando a rua pretende substituir o voto, a agitação pretende substituir a representação e a ideologia pretende substituir a lei, já não estamos apenas perante um protesto social.
Estamos perante um problema de democracia.
Recordo-lhe o óbvio: nenhum dos pretensos ativistas deve ter votado em si, aliás, nenhum deles acredita em eleições.
Isto tudo, Senhor Presidente, deveria preocupar-nos a todos, mais do que tudo o resto.