A aprendizagem que falta ao mercado de trabalho

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No dia 19 de março celebra-se o International Digital Learning Day. Numa era em que a tecnologia transformou radicalmente a forma como acedemos ao conhecimento, parece justo perguntar: e o mercado de trabalho, já aprendeu alguma coisa?

A resposta, infelizmente, é desencorajadora. Porque enquanto celebramos a democratização da aprendizagem digital, continuamos a tratar o trabalho mediado por plataformas tecnológicas como um fenómeno suspeito, algo a vigiar, a conter, a enquadrar à força nos moldes de um paradigma laboral que já não serve quem nele opera.

Vivemos uma contradição flagrante. Por um lado, aplaudimos a revolução digital que permite a qualquer pessoa, em qualquer ponto do planeta, aprender uma nova competência com alguns toques no telemóvel. Por outro, olhamos com desconfiança para quem usa essa mesma lógica digital para construir a sua carreira. Como se aprender digitalmente fosse progresso, mas trabalhar digitalmente fosse retrocesso.

O preconceito tem nome, falsa precariedade. A ideia, tão instalada quanto infundada, de que todo o trabalho fora do modelo tradicional "por conta de outrem" é, por definição, uma forma de exploração disfarçada. Esta leitura, além de paternalista, ignora uma realidade cada vez mais evidente, a de que milhares de profissionais escolhem, de forma consciente e deliberada, exercer a sua atividade através de plataformas digitais. Não por falta de alternativa, mas porque este modelo lhes oferece algo que o enquadramento clássico raramente consegue; a autonomia, diversidade de experiência e reconhecimento objetivo do seu desempenho.

E é precisamente aqui que o Digital Learning Day nos deveria fazer parar para pensar. Porque as plataformas de trabalho flexível são, na prática, os ecossistemas de aprendizagem contínua mais eficazes que o mercado produziu até hoje.

Quando um profissional executa compromissos em múltiplas organizações ao longo de uma semana, está a absorver diferentes culturas de gestão, a dominar diferentes sistemas, a resolver problemas em contextos que mudam a cada serviço. Acumula, em meses, uma riqueza de experiência que levaria anos a construir dentro de uma única empresa. Recebe feedback concreto e evolui com base em dados reais, não em perceções subjetivas de uma chefia que o vê há três anos sentado na mesma cadeira.

Isto é aprendizagem digital na sua expressão mais pura. Não a do curso online que se faz entre reuniões, mas a do terreno, onde teoria e prática se fundem em tempo real, potenciadas pela tecnologia que faz o matching, gere a logística e mede os resultados.

Contudo, e aqui reside o paradoxo mais grave, estes profissionais continuam a operar num limbo de proteção social que não faz justiça ao valor que geram. Porque o nosso enquadramento legal foi desenhado para um mundo binário: ou se é trabalhador dependente, com todos os direitos que lhe assistem; ou, se é independente, com uma rede de segurança que, apesar dos avanços dos últimos anos, permanece francamente insuficiente.

Sim, reconheçamos o progresso. O acesso ao Subsídio de Desemprego, a cobertura por baixa médica, as licenças parentais para trabalhadores independentes foram conquistas importantes. Mas a velocidade a que o mundo do trabalho evolui exige bastante mais do que remendos legislativos. Exige uma mudança de mentalidade.

Se aceitamos que a aprendizagem digital é legítima, se celebramos plataformas que democratizam o acesso ao conhecimento, então temos a obrigação de aplicar a mesma lógica ao trabalho. Reconhecer que as plataformas tecnológicas não são inimigas dos direitos laborais, são instrumentos que, devidamente enquadrados, podem valorizar os profissionais de uma forma que o modelo tradicional frequentemente não consegue.

A questão central não é proibir ou restringir. É proteger sem infantilizar. Criar um quadro regulatório que respeite a escolha consciente de quem opta pelo trabalho autónomo e lhe garanta condições dignas, sem o forçar a regressar a um modelo que já não corresponde às suas aspirações, nem às exigências do mercado.

Porque o verdadeiro risco não está na liberdade profissional. Está na obstinação de a tratar como anomalia. Cada vez que rotulamos como precário um profissional que escolheu deliberadamente a autonomia, estamos a desvalorizar a sua capacidade de decisão. Estamos, no fundo, a dizer-lhe que não sabe o que é melhor para si. E esse paternalismo, além de anacrónico, é profundamente injusto.

O International Digital Learning Day celebra a ideia de que a tecnologia nos liberta para aprender de formas que antes eram impensáveis. Que derruba barreiras, cria oportunidades e coloca o indivíduo no centro do seu próprio percurso de desenvolvimento. Pois bem, apliquemos essa mesma convicção ao trabalho. Libertemos os profissionais para construírem carreiras à sua medida, com a proteção que merecem e a confiança que lhes devemos.

A maior lição deste dia não está num ecrã. Está na coragem de olhar para o mercado de trabalho e admitir que quem precisa de aprender, urgentemente, não são os profissionais. Somos nós, de legisladores a gestores ou decisores. Porque o futuro já chegou, e continua à nossa espera.

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