Sobre prevenção (III)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

Publicado a

Em Portugal, as despesas do Estado com o Sistema de Saúde ultrapassam 17 mil milhões de euros por ano (equivalente a cerca de 90% das receitas arrecadadas pelo IRS). Mas, sublinho que este montante, sem dúvida exorbitante, é destinado à globalidade do setor da saúde sem especificar qual a fração destinada à prevenção. Sabe-se, no entanto, que é exígua. Colocar a prevenção no centro da estratégia das políticas públicas para a saúde continua a ser inadiável. Um dever constitucional.

Ora, as atividades preventivas concretizam-se a vários níveis. Classicamente, consideram-se três categorias de prevenção: primária, secundária e terciária.

Esclareço os respetivos conceitos.

A prevenção primária assume a primazia pela importância que representa no conjunto das ações preventivas, conduzidas tanto pelo Estado como pela população. Visa a adoção pela escolha inteligente de estilos de vida saudáveis. Para tal, na perspetiva de cada pessoa saber evitar riscos, inclui o desenvolvimento de programas de literacia para a saúde através de informações emitidas por fontes credíveis. Trata-se de um processo em cascata: informação/comunicação/conhecimento/ opção tomada para o modo certo de viver. Ou, dito de outra maneira: tem por principal objetivo a transmissão de informações capazes de gerarem opções por comportamentos sem riscos (sobretudo riscos evitáveis). Logo, tem em atenção a necessidade de propiciar a perceção de perigos decorrentes da prática de determinados comportamentos: alimentação com excesso de calorias, de sal, de açúcar ou de gorduras trans (gorduras modificadas); sedentarismo; abuso de consumo de álcool; exposição ao fumo do tabaco; consumo de drogas psicotrópicas e perturbações do sono.

São, também, exemplos de prevenção socialmente aceites: a proteção solar para prevenir o cancro cutâneo ou o uso de preservativos para impedir infeções por via sexual.

A prevenção primária engloba, igualmente, medidas de proteção específica para certas doenças quer pela administração de medicamentos quer pela vacinação.

Na primeira situação, são de uso comum, desde há muito, as terapêuticas quimioprofiláticas (através de prescrição clínica) de ferro, ácido fólico, fluor, aspirina, estatinas, entre outros exemplos. São medidas que evitam ou reduzem os riscos de anemia durante a gravidez, de cárie dentária, de acidentes vasculares ou de dislipidémias, respetivamente.

Em Portugal, apesar do clima ser predominantemente soalheiro, a insuficiência em vitamina D é frequente. Constitui um problema que impõe (se confirmada laboratorialmente) a toma suplementar desta vitamina a título preventivo.

(Continua)

Diário de Notícias
www.dn.pt