Sobre os efeitos do frio em saúde publica (I)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Avizinham-se semanas frias. O outono prenuncia esse período do ano. É, por isso, oportuno planear, desde já, soluções que visem preservar a saúde pública e prevenir problemas sazonais.

Como sempre sucede, a estação fria está na origem de riscos que impõem a adoção de medidas protetoras. Sem demoras. Nesse sentido, exigem, antecipadamente, a atenção de todas as pessoas (inseridas nos próprios ambientes familiares e laborais) e, também, de diferentes entidades do Estado, nomeadamente dependentes dos ministérios da Saúde e da Segurança Social.

Dito de outra maneira: a prevenção dos efeitos do frio na saúde, além de requerer, na dimensão individual, a promoção de autocuidados, reclama intervenções políticas pelos organismos governamentais. Para tal, é preciso mobilizar meios adequados destinados ao controlo dos perigos associados às baixas temperaturas que, aliás, são previsíveis. Em princípio, não serão diferentes de anos anteriores, no caso de não acontecerem fenómenos climáticos extremos inesperados.

No plano institucional, as unidades do Serviço Nacional de Saúde devem organizar as respostas à habitual maior procura de doentes, sobretudo no período de coincidência temporal com o pico da atividade gripal, uma vez que não há inverno sem gripe.

Antes de mais, o objetivo principal é reduzir a mortalidade.

Preciso.

Em Portugal, como se sabe, a mortalidade não ocorre com cadência constante ao longo do ano. Bem pelo contrário. Apresenta uma curva sinusoidal em função do clima característico de cada mês, sendo maior nos meses frios e expressivamente inferior nos amenos e quentes. Realço, a título de exemplo: em janeiro podem ser registados cerca de 13.000 óbitos em comparação com 9000 em agosto. Conclui-se, portanto, que o risco de morrer é mais elevado durante a época fria. Certamente são múltiplas as causas que explicam este facto.

A falta generalizada de conforto térmico das residências, devida à fragilidade de eficiência energética das construções associada à pobreza das famílias, que atinge 3 milhões de pessoas, não pode ser ignorada como um dos principais motivos para as consequências indesejáveis do frio. A precariedade dos rendimentos familiares impossibilita o aquecimento necessário das respetivas habitações devido aos incomportáveis custos da energia.

A existência de um gradiente social com reflexos na saúde, criado como resultado da diferença de rendimentos familiares, é gerador de iniquidades que colocam as pessoas com rendimentos mais baixos em posição vulnerável.

A pobreza continua a representar riscos para a saúde. Intolerável em democracia.

 (Continua)

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