Hoje, retomo apontamentos relacionados com as epidemias de cólera ocorridas em 1974 e 1975, em Portugal. Como assinalei, nessa época, era preciso tudo fazer para assegurar a potabilidade da água destinada ao consumo humano, recorrendo à cloração, uma vez que o cloro é o mais eficaz dos desinfetantes da água.
Em meio rural, a Direção-Geral da Saúde (DGS) recomendava a utilização de potes difusores de cloro. O método, apesar de bizarro, pela sua simplicidade artesanal, tinha eficácia. Refiro-me à colocação no fundo do poço de um pote de barro cheio de cloreto das lavadeiras e areia, vedado com uma rolha de cortiça que aí ficava submerso pendurado por cordas. O objetivo era conseguir a difusão de cloro (libertado a partir do cloreto), através das porosidades do barro, na perspetiva da manutenção de teores de cloro residual na água durante algumas semanas. Os respetivos níveis da cloração eram, regularmente, vigiados e corrigidos pelo agente sanitário do Centro de Saúde. Para esse fim, dispunha de uma motorizada que na parte traseira ostentava a placa “Estado” (símbolo inequívoco de autoridade). No final da jornada, depois de ter percorrido os poços das aldeias, apresentava ao delegado de saúde os resultados obtidos. Invariavelmente, os principais problemas que relatava estavam ligados a reclamações das populações que passaram a beber “água boa, mas com mau sabor” em alternativa à antiga “água com bom sabor, mas má”. Na ideia de aumentar a aceitação social do método dos potes, o agente sanitário promovia reuniões na Casa do Povo para insistir na importância da prevenção da cólera e aconselhar o truque de juntar gotas de limão à água clorada para atenuar o mau sabor. Tudo isto implicava muito trabalho. Persistência.
Ao olhar para trás, as ações, então, conduzidas são quase inimagináveis. Tempos incríveis.
Portugal só viria a mudar após a concretização das grandes empreitadas de obras públicas de saneamento básico realizadas na década 1980-1990. Por todo o lado foram construídos modernos sistemas de aprovisionamento de água, de redes de esgotos dotadas com estações de tratamento e equipamentos de recolha com tratamento final de resíduos (aterros sanitários). Multiplicaram-se empreendimentos do Estado e municipais. A defesa da qualidade ambiental tornou-se uma exigência popular natural.
Surgiu um novo país. Limpo. A incidência de doenças de transmissão hídrica foi reduzida a expressão ínfima. As epidemias de cólera nunca mais regressaram. A febre tifoide e a hepatite A (icterícia) deixaram de constituir problemas. Enfim, Portugal transformou-se. Passou a ser país Europeu.
(Continua )