Sobre doenças venéreas (II)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Retomo o tema da sífilis. Como já antes acentuei, transmite-se, em regra, por via sexual quando um dos parceiros está infetado ou, mais raramente, da mãe ao filho através da placenta (sífilis neonatal).

Começo pela época anterior aos medicamentos modernos.

A sífilis evoluía de forma crónica por fases que apresentavam sintomas diversos, incluindo manchas na pele. Curiosamente, a designação inglesa de smallpox para a varíola foi adotada para facilitar o reconhecimento da diferença com as manchas maiores típicas da sífilis.

Cerca de tês semanas depois do contágio surgiam os primeiros sintomas da infeção que depois de algumas semanas iriam desaparecer. Esta “cura” era só aparente, visto que as manifestações sifilíticas reapareceriam a seguir a um longo período de “adormecimento” que podia durar entre 20 e 30 anos ou ainda mais.

Dito de outra maneira: a sífilis podia persistir quase por toda a vida do doente. Os seus efeitos (sífilis tardia) eram inquietantes, uma vez que atingiam vários órgãos, designadamente o coração e o sistema nervoso central. Nessa altura, marcada pela inexistência de medicamentos, as perturbações neurológicas eram muito preocupantes não só pela evolução clínica grave como também pela magnitude que apresentavam.

Em Portugal, antes do final do século XIX, cerca de 20% dos doentes internados em manicómios tinham como causa a demência paralítica de origem sifilítica. Era um problema social que afetava tanto famílias pobres, como ricas, incluindo a aristocracia. Representava uma enorme preocupação de saúde pública associada ao atraso do país marcado pelo analfabetismo: 80% dos portugueses não sabiam ler, nem escrever.

Nesse tempo, a ineficácia das medidas de prevenção e terapêutica explicava a alta prevalência da sífilis. Apesar das reconhecidas dificuldades, a primeira consulta de venereologia foi criada no Hospital do Desterro (Lisboa), em 1897, pelo médico Thomaz de Mello Breyner (1866-1933). Uma iniciativa de inquestionável mérito.

Em 1907, o cientista alemão Paul Ehrlich (1854-1915) sintetizou o primeiro composto químico indicado para tratar a sífilis: Salvarsan. No ano seguinte, viria a receber o Prémio Nobel da Medicina.

As notícias sobre o Salvarsan, amplamente comercializado a partir de 1910, desencadearam um clima de grande otimismo e esperança para os doentes e respetivos familiares. Uma euforia contagiante, apesar dos seus efeitos colaterais.

Depois da II Guerra Mundial, o Salvarsan viria a ser substituído pela introdução no mercado da penicilina que, sem efeitos secundários, passou a assegurar a cura definitiva da sífilis. Um alívio social.

(Continua).

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