Sobre doenças venéreas (I)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Na Mitologia da Antiguidade Romana, Vénus era a deusa do amor, da beleza, do desejo e do sexo. Razão que viria a explicar a designação de doenças venéreas a todas as infeções sexualmente transmitidas.

Começo pela sífilis, a mais temida dessas doenças, que só viria a ter tratamento eficaz (cura) após a introdução da penicilina, a partir de 1945. Anteriormente, constituía um problema social de dimensão extraordinária, não só pela imensidão das pessoas infetadas e pela gravidade da evolução da doença, mas também pelo estigma associado e pelas repercussões familiares que eram, quase sempre, dramáticas (em certo sentido comparáveis à sida dos anos 80).

A sífilis era, então, incurável. O risco em adquirir a infeção por via sexual era elevado quando um dos parceiros estava infetado. Tanto a literatura como o cinema retrataram com notável realismo esse tempo, nomeadamente a inesquecível obra da escritora dinamarquesa Karen Blixen, África Minha, reproduzida, em 1985, no filme de Sidney Pollack.

A esse propósito, lembro-me de um professor da Faculdade de Medicina ter iniciado a lição sobre sífilis a afirmar que, antes da comercialização da penicilina, era frequente os maridos “oferecerem” a doença à noiva na noite de casamento. Prontamente, acrescentava que pretendia apenas ilustrar a alta prevalência da infeção naquela época, particularmente em homens que tinham vida libertina e de boémia...

A história da sífilis na Europa remonta ao final do século XV. Está ligada aos itinerários dos movimentos dos marinheiros que atravessaram o Atlântico e dos soldados dos Exércitos das grandes potências europeias. Em Nápoles, o início explosivo da epidemia (1495) está bem documentado. A natureza repentina como a sífilis ali surgiu, a seguir ao regresso de Cristóvão Colombo das Américas, explicaria, desde cedo, a sua origem. Logo depois, seria disseminada pelas Invasões Francesas. Principiaria a devastação e o pavor na Europa.

Em Portugal, a primeira descrição consta do Cancioneiro Geral do cronista Garcia de Resende (1470-1536) que se refere ao “mal francês”. Aliás, se bem que a expressão sífilis tenha aparecido em 1530, eram diversificadas as suas designações: mal gálico, morbo napolitano, mal serpentino, doença das bubas (boubas), doença das mil caras, lues, etc.

O agente bacteriano da sífilis, que foi identificado em 1905, é o Treponema pallidum (comumente denominado como espiroqueta). Uma vez introduzido no organismo, através de relações sexuais, começa por provocar uma úlcera no local do contacto direto. O período de incubação varia entre 10 dias e 3 meses, sendo, geralmente, 3 semanas.

(Continua)

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