Sobre a independência da independência da Guiné-Bissau (I)

Francisco George

Ex-diretor-geral da Saúde

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Tal como já antes escrevi, trabalhei, como médico, em países africanos, a partir de 1980 e até 1992. Conheci, durante esses anos, todas as antigas colónias de língua portuguesa e, também, outras francófonas e anglófonas.

Hoje, o meu depoimento sobre a Guiné-Bissau pretende traduzir o pulsar daquele tempo, marcado por imensa esperança, a seguir à Independência.

A História da chegada dos portugueses remonta a 1446 quando o navegador Nuno Tristão descobriu o recorte continental e as ilhas atlânticas da Costa de África, na zona da foz do rio Gâmbia, que atravessa o Senegal. Porém, nesse mesmo ano, Nuno Tristão morreu, atingido por uma seta, na sequência de ataques comandados pelos guerreiros Mandingas armados de arcos e flechas envenenadas. As suas canoas, muito velozes (pirogas de um só tronco de árvore, como ainda persistem, atualmente), surpreenderam a tripulação e o próprio capitão da caravela. Por decisão do Infante, logo continuaram as explorações marítimas da região. As expedições das caravelas sucederam-se na perspetiva de continuarem o reconhecimento das margens dos estuários dos rios Guineenses. Alcançar e tomar as riquezas naturais ali existentes (como o ouro), a par da captura e exportação de escravos eram objetivos principais para a Coroa de Lisboa do rei Afonso V, justamente apelidado de “o Africano”.

Mas, ao contrário do que sucedeu em Angola e Moçambique, a Guiné-Bissau nunca terá sido verdadeiramente povoada por colonos portugueses, se bem que as suas riquezas tenham sido permanentemente buscadas, desde meados do século XV. Ou, escrito de outra maneira: o colonialismo aconteceu, mas sem colonos provenientes de Portugal, que nunca adquiriram expressão populacional significativa.

Aliás, a este propósito, os historiadores confirmam o insucesso das sucessivas tentativas de fixação de colonos com caráter permanente, em Bissau, incluindo na órbita da feitoria criada expressamente para esse fim, em 1696, que era dotada de fortaleza, igreja e hospital. O clima inóspito e as doenças tropicais (nomeadamente o paludismo) terão sido os motivos do afastamento de colonos europeus.

Durante os 527 anos, que separam a descoberta de Nuno Tristão e a proclamação da Independência, foram poucas as famílias de colonos que procuraram as terras guineenses para viverem, à exceção de alguns comerciantes que aí se estabeleceram no período pós-escravatura (depois de1869). Neste panorama, destacou-se a Casa Gouveia, fundada em 1879, especializada no comércio de produtos agrícolas (palmito, coconote e amendoim), que, em 1921, viria a ser adquirida pela CUF.

(Continua)

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