Sobre a História da Medicina

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A 31 de dezembro de 1973, terminei o curso na Faculdade de Medicina de Lisboa. Poucos dias depois, recebi a Cédula Profissional assinada pelo então Bastonário da Ordem, João Pedro Miller Guerra. Na altura, eu era médico interno no Hospital de Santa Marta. Sabia que Miller Guerra, meu antigo professor, associava a atividade de médico à participação cívica, a que se dedicava com visível satisfação e brio indiscutível.

Miller Guerra (1912-1993) era uma figura distinta que conjugava a tripla condição de transmontano (nascera em Vila Flor), de ter sido estudante na Universidade de Coimbra e de ter escolhido Lisboa para prosseguir a carreira de neurologista, académico e de político.

Aqui, na capital, além de professor da Faculdade de Medicina, aceitaria ser deputado, primeiro integrado na “Ala Liberal” da época de Marcelo Caetano e depois no Partido Socialista de Mário Soares.

Guardo na minha memória as palavras que, em 1966, proferiu na Associação de Estudantes sobre a importância da Medicina Contemporânea. Era eu estudante do 1.º ano da faculdade. Apesar de terem passado 60 anos, ainda consigo lembrar-me dos conceitos que transmitiu durante a sua Conferência.

Miller Guerra considerava que a Medicina, em termos de conseguir, com eficácia, tratar doenças e preservar a saúde, existia há relativamente pouco tempo. Para ele seria uma História com cerca de 100 anos.

Estou certo de que tinha razão. Basta para tal comparar a evolução do indicador que traduz a longevidade das pessoas (esperança de vida ao nascer) e o ritmo dos avanços continuamente alcançados em Saúde Pública marcados pelas consecutivas descobertas científicas que acontecerem ao longo dos 100 anos antes da Conferência de Miller Guerra.

Imaginemos a diferença dos tempos antes e depois de cada uma dessas conquistas. No conjunto, contribuíram para elevar a esperança de vida média de 31 anos, estimada para meados do século XIX, para mais de 81 anos, atualmente.

Preciso.

Descoberta da anestesia pelo éter e clorofórmio pelo médico inglês John Snow, em 1953, e a introdução da assepsia em cirurgia, pelo fenol, proposta pelo cirurgião britânico Joseph Lister, a partir de 1865.

A demonstração, em 1879, de que agentes patogénicos estão na origem de doenças infecciosas pelo químico francês Louis Pasteur e confirmada pelo médico alemão Robert Koch, em 1882.

A descoberta dos raios-X pelo físico alemão Conrad Rontgen, em 1895.

Início do uso de comprimidos de aspirina, em 1897, na sequência das pesquisas do químico alemão Felix Hoffmann. No ano seguinte, a radioatividade é descoberta pela física polaca Marie Sktodowska Curie.

(Continua)

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