Na China imperial, [pelo menos] a partir da dinastia Ming (1368-1644), o guānhuà (literalmente a “língua dos oficiais”) tornou-se a língua padrão dos oficiais imperiais e da burocracia para fins administrativos, usada para unificar a comunicação num vasto império com diversos dialetos, como o cantonense, o dialeto fuzhou, o wu. Provindo dos běifānghuà (“dialetos do norte”), era uma das variações da língua chinesa falada na maior parte do norte – principalmente na capital [do norte], Pequim – e do sudoeste da China. Essa decisão ajudou a unificar o vasto império e facilitou a comunicação entre as diferentes regiões, os oficiais imperiais e os funcionários durante as dinastias Ming e Qing (1644–1912). Com o tempo, o guānhuà evoluiu para o chinês padrão moderno, conhecido como 'pǔtōnghuà' (língua comum) na China Continental, 'guóyǔ' (língua nacional) em Taiwan, e 'huáyǔ' (língua dos chineses) em Singapura.A língua chinesa, o Pǔtōnghuà, falada hoje por mais de mil milhões de pessoas, é designada fora da China como “Mandarim”. De onde vem este termo “Mandarim”?Em alguns artigos ainda aparece a menção a “Mandarim” como a adaptação fonética de Mǎn Dà Rén – literalmente, “pessoa importante Manchú” ou “Sua Excelência Manchuriana”. Esta tese é errada. Desde logo, porque o termo “Mandarim” para referir a língua chinesa falada começou a ser utilizada por estrangeiros durante a dinastia Ming, ou seja, muito antes da tomada do poder na China pelos Manchús, que deu início à dinastia Qing (em 1644). Por outro lado, a larga maioria dos oficiais imperiais civis – aqueles com quem os estrangeiros contactavam e lidavam – eram chineses Han, não Manchús; [até perto das últimas décadas da dinastia Qing] apenas os oficiais imperiais militares [de topo] eram Manchús.De acordo com informação que se encontra em vários sites online bastante generalizados – incluindo no Wikipedia e no Reddit, o que significa que esta informação foi recebida como boa pelos LLMs e chatbots de inteligência artificial generativa (ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, etc) – o termo “Mandarim” vem da palavra portuguesa “mandarim”, que por sua vez derivaria da palavra malaia (austronésio) “menteri”, acrescentando alguns que “menteri” derivaria, por seu turno, da palavra do hindi e do sânscrito “mantrin” – ambas significando “ministro” ou “conselheiro”.Que o termo “mandarim” para designar o guānhuà provém da palavra portuguesa “mandarim” não parece haver dúvidas.Todavia, que o termo “mandarim” derive da palavra “menteri” e/ou da palavra do hindi e do sânscrito “mantrin”, temos as maiores dúvidas e é provavelmente incorreto.No início do século XVI, a cidade portuária de Malaca, na península da Malásia, controlava o estratégico estreito de Malaca, por onde passava quase todo o comércio marítimo entre a China e o oceano Índico. Após a tomada de Malaca pelos Portugueses, em 1511, mercadores lusitanos começaram gradualmente a fazer comércio no Pacífico, aportando a cidades costeiras chinesas em busca de especiarias, seda, chá e outros artigos exóticos.Antes do acordo luso-chinês de 1554, que permitiu a legalização das atividades dos mercadores portugueses nas cidades costeiras de Guangdong mediante o pagamento de uma taxa, abrindo caminho para o estabelecimento de Macau como entreposto português, em 1557, já comerciantes portugueses haviam tentado instalar entrepostos comerciais, em Tamão (Tunmen) – onde Jorge Álvares levantou um padrão [do rei de Portugal] em 1513 e onde teve lugar a primeira batalha naval entre uma armada chinesa e uma europeia (portuguesa, chefiada por Simão de Andrade) –, Liampó (Ningbo) – o mais famoso dos “assentamentos provisórios” –, Chincheu (Zhangzhou / Baía de Yuegang), Ilha de SãoChoão(Shangchuan) – local da morte de São Francisco Xavier em 1552, enquanto aguardava autorização para entrar na China Continental – e Ilha de Lampacau (Langbaijiao).. Como é notório, os mercadores portugueses tiveram trocas comerciais intensas na costa chinesa.. Estes comerciantes repararam que os habitantes locais falavam uma língua / dialeto – cantonense, dialeto fuzhou, wu – diferente da língua falada pelos oficiais imperiais que mandavam na terra. Em muitos casos, os mercadores lusos tinham que interagir com estes oficiais para poder comerciar. A estes oficiais, os mercadores e marinheiros portugueses deram o nome de “mandarins”. O termo derivava dos verbos em língua portuguesa relativos ao seu poder – o poder de “mandar” (os mandarins civis) [ou o poder de “comandar” (os mandarins militares)]. Como os oficiais imperiais falavam uma língua diferente da dos locais, os mercadores e marinheiros portugueses chamaram a essa língua a “língua dos mandarins”. Com o tempo passou de “língua dos mandarins” para “Mandarim”.Alguns autores consideram que os portugueses usavam uma variação da palavra malaia para ministro do governo, “menteri”, que terão aprendido em Malaca.Com o devido respeito, não faz sentido pensar que mercadores e marinheiros, praticamente todos com uma iliteracia grande da sua própria língua escrita (nos séculos XVI e XVII estima-se que 85% a 90% da população portuguesa era analfabeta), tivessem ido buscar expressões eruditas à língua malaia, ao hindi ou ao sânscrito (!).Além disso, não se divisa porque haviam os mercadores e marinheiros portugueses de equiparar ‘ministros do governo’ malaios a oficiais imperiais chineses. Os oficiais imperiais com quem os mercadores portugueses tiveram que lidar nas cidades costeiras da China eram, para eles, a autoridade local, sendo muito duvidoso que pessoas com baixo nível cultural e educacional tivessem conhecimento da estrutura organizacional do Império Chinês.Resta a hipótese de o termo ter sido criado por padres que tivessem ido com os mercadores e marinheiros, sendo que esses ministros do culto cristão católico tinham educação para poder ter mais conhecimentos. Porém, não encontrámos evidências de tal. E, tendo formação letrada, é duvidoso que fossem poliglotas dominando o malaio e o hindi.Em bom rigor, “Mandarim” refere-se apenas à língua chinesa falada. A língua chinesa escrita sempre foi designada como “língua chinesa” (hànzì) ou “chinês” (hànyǔ). Porém, é habitual fora da China confundir-se os dois conceitos e chamar “Mandarim” a toda a língua chinesa, falada ou escrita.A designação da língua chinesa falada como “Mandarim” passou rapidamente da língua portuguesa para outras línguas. Aparentemente, já em 1589 foi utilizada em língua inglesa (“Mandarin”).Curiosamente, não encontrámos artigos ou investigação específica em língua portuguesa, para além da repetição da [errada] vulgata já referida que se encontra no Wikipedia. Se alguém souber de artigos ou investigação específica sobre o tema, muito grato fico se me derem deles conhecimento.