Imagino que alguns dos potenciais leitores deste texto tenham olhado para o título e desistido. Talvez não tanto porque lhes não interesse o assunto: apenas porque o tema lhes parece um déjà vu – passe o galicismo. Mais um a falar de democracia, pensarão, com ar enfadado. Seja.É bem verdade que a democracia e os aforismos sobre ela são temas populares. Muitos, que, na melhor das hipóteses, têm uma ideia rudimentar e nebulosa do que seja realmente a democracia, fazem questão de se afirmar democratas. E não apenas democratas: verdadeiros democratas, uma espécie do género, parece, de contornos misteriosos. Ainda bem! Mas é pouco, convenha-se.A democracia traduz-se numa forma de entender e organizar o poder político, de modo a que este assente no povo – conjunto indiferenciado de todos os cidadãos adultos – e na vontade deste, manifestada diretamente ou através de representantes. Os seres humanos organizam-se de muitas formas, a maioria das quais nada tem de democrático, uma vez que se não baseiam numa concepção igualitária dos envolvidos. A família não é uma democracia. A escola não é uma democracia. A empresa não é uma democracia. As confissões religiosas não são democráticas.Apenas as organizações políticas, na medida em que se ocupam dos assuntos relevantes para a segurança, o bem estar e outros interesses coletivos de uma comunidade, podem ser democráticas. Ou não. Por isso falamos em democracia política (muitas organizações privadas respeitam o princípio democrático, mas não integram esta).A ideia, que qualifiquei de nebulosa, de democracia, tende a identificar esta, simplesmente, com a vontade da maioria (uma espécie de versão simplista do princípio one man – ou woman, bem entendido –, one vote). Se esta vontade muda, ou se alguns entendem que mudou, bastaria ajustá-la às crenças, variáveis, duvidosas e erráticas, de uma suposta maioria.Mas isto não é democracia: seria o caos.A democracia tem necessariamente de assentar numa organização do poder, habitualmente delineada numa lei fundamental, uma Constituição, que lhe confere um mínimo de estabilidade. A Constituição dita quem, como e quando se exercem os poderes essenciais à vida da comunidade, determina os direitos dos cidadãos, regula as funções dos órgãos, protege as minorias, etc.Uma decisão democrática não é uma decisão tomada por uma qualquer maioria aritmética: é uma decisão de um órgão competente para a tomar (e não de um qualquer grupo de cidadãos, ainda que se trate de uma multidão), na forma estabelecida e conforme à Constituição.Aqueles que, em cada momento e sobre qualquer assunto, sustentam que a importância que eles próprios atribuem a este e a circunstância de ser essa a suposta opinião de uma maioria – nunca comprovada, nem sequer explicitada – é suficiente para nos impor a sua vontade – provavelmente através de referendos contrários à Constituição – não são, claro, democratas.São aspirantes a tiranetes.