Sines, a mediterrânica!

Raúl M. Braga Pires

Politólogo arabista. Professor no Instituto Piaget de Almada

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“De Elefante Branco a desígnio nacional”, também daria um bom título, já que quem cresceu na década de 1970, aprendeu este eufemismo, no contexto de uma refinaria sorvedora, que não servia para nada. Do mesmo tempo, aliás, em que circulava a “informação”, em Portugal, que os hambúrgueres eram minhocas processadas e não carne picada! True story, não é tanga!

Em 2026, Sines é do tamanho de Portugal e encontra-se actualmente numa intercepção de interesses, que poderá catapultá-la enquanto polo-referência para a produção de hidrogénio verde, do mediterrâneo ocidental, em pleno Atlântico! A “guitarra” aqui está, “teremos unhas para a tocar”?

Das dúvidas à concretização, da “guitarra às unhas”.

Decorrerá hoje no Centro Cultural de Sines, o “Impulso Local”, conferência sobre como o futuro da nação passará pela “energia, economia digital e investimento no Sul do país”. Integrada no ciclo de conferências “Capital económica do Sul”, eis as perguntas que pretendemos colocar, hoje, in loco, na tentativa de aferir, o grande plano e a exequibilidade do mesmo. O plano macro, depende de terceiros, suscitando dúvidas:

Primeira, os “portugueses de Sines”, acreditam mesmo na exequibilidade das propostas marroquina e argelina, de construção dos dois gasodutos no sentido da fonte nigeriana?

Segunda, os “portugueses de Sines” têm planos para investir/integrar os consórcios que se estarão a constituir para alavancarem ambos projectos?

Terceiro, os “portugueses de Sines” preferem marroquino ou argelino, a capital mais próxima, Rabat, ou a “torneira mais antiga”, Argel?

Quarta, os “portugueses de Sines” têm um plano b, caso vejam ambas propostas magrebinas enquanto plano a? Ou seja, o hidrogénio verde é claramente a opção tomada, ou ainda há debate entre produção/custos/alternativas?

Quinta, contemplando um cenário óptimo, no qual ambos gasodutos estão prontos e a bombar, que argumentos a Sines portuguesa terá, perante as “sete Sines espanholas”, no sentido de nos tornarmos um produtor-referência, do combustível que dará independência energética à Europa?

Neste particular último, valerá a pena recordar, que o antigo Chanceler alemão Olaf Scholz, em maio de 2022, em visita a Portugal declarou o seu apoio, à construção de um gasoduto entre Portugal e a Europa Central, no sentido da redução das dependências da Rússia. A guerra aí estava recente, em 2022 e aí continua em 2026!

Sines, no plano europeu, representa a metáfora perfeita de um Portugal geograficamente atlântico, mas que, geopoliticamente e para contar, terá que pensar no plano mediterrânico. Eis o génio, que creio, poderemos ter, fazer de Sines, a atlântica, Sines, a mediterrânica!

 Politólogo/Arabista / Professor do Instituto Piaget de Almada

 O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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