Há cidades que se visitam e há cidades que ficam connosco mesmo depois de regressarmos. Seul é uma delas. Estive na capital sul-coreana para o Congresso Internacional da Doença de Parkinson e Doenças do Movimento, organizado pela International Parkinson and Movement Disorder Society (MDS), e dei por mim, logo nas primeiras horas, a tentar perceber como uma cidade consegue ser, ao mesmo tempo, tão vertiginosamente moderna e tão serenamente fiel a si própria e a uma cultura tão diferente daquela a que estamos habituados.
Em Gangnam, a zona onde decorreu o congresso, os arranha-céus e os ecrãs gigantes parecem antecipar o que o resto do mundo ainda não viu. Bastam alguns minutos num metro impecável, pontual e silencioso para percebermos que estamos num mundo diferente do nosso. Não admira que a Coreia do Sul seja hoje uma potência científica e tecnológica. Mas ao lado dos arranha-céus, encontramos templos onde reina a paz, onde o ruído da cidade desaparece, e onde o tempo parece andar mais devagar.
E foi precisamente sobre conhecimento, e sobre o tempo, que se falou no congresso de 2026. O tema central deste ano foi a relação entre o envelhecimento e a neurodegeneração. A idade continua a ser o principal fator de risco para a doença de Parkinson, e percebemos cada vez melhor que envelhecer não é apenas somar anos: é acumular alterações nas células, no sistema imunitário, na forma como o organismo responde à inflamação. Discutiu-se a senescência celular, a fragilidade, as comorbilidades, e a ideia, ainda emergente, mas fascinante, de que intervir nos mecanismos biológicos do envelhecimento poderá um dia ajudar a travar, ou alterar a progressão de doenças como a de Parkinson.
Os biomarcadores voltaram a estar no centro das atenções. Há poucos anos, confirmar a presença de alfa-sinucleína patológica num doente vivo parecia uma miragem. Hoje, os testes de amplificação desta proteína em líquido cefalorraquidiano, e cada vez mais em pele e outros tecidos, estão a mudar a forma como pensamos o diagnóstico, permitindo identificar a doença mais cedo, selecionar melhor os participantes dos ensaios clínicos e, sobretudo, olhar para a doença pela sua biologia e não apenas pelos sintomas. Para quem, como eu, se dedica ao estudo desta proteína, é um momento particularmente gratificante.
Discutiram-se também a genética, que nos ajuda a perceber que não existe uma doença de Parkinson, mas várias, os avanços na estimulação cerebral profunda e noutras tecnologias, e uma nova geração de terapias em desenvolvimento, incluindo ensaios de fase avançada em doenças como a atrofia multissistémica, para a qual continuamos sem tratamentos capazes de modificar o curso da doença.
Mas um congresso não se faz apenas de auditórios. Faz-se, talvez sobretudo, dos corredores, dos cafés apressados, dos jantares que se prolongam. Foram dias de muitas reuniões de trabalho, várias logo às 7h00 da manhã, o que tornou os dias extremamente longos. Mas foram reuniões importantes, com colaboradores de longa data, e com colegas que conhecia apenas pelos artigos, ou por videoconferências, com comissões e grupos de trabalho da MDS, com jovens investigadores que procuram trilhar o seu caminho. Planearam-se projetos, discutiram-se dados ainda por publicar, desenharam-se colaborações que, daqui a alguns anos, darão frutos. É nestes encontros que a ciência ganha rosto e que as fronteiras, geográficas e disciplinares, se dissolvem. E é também aqui que percebemos o lugar que Portugal pode e deve ocupar nesta rede global, se continuarmos a investir na nossa ciência.
Saí de Seul com otimismo renovado. Não um otimismo ingénuo, porque sabemos que há ainda um caminho a percorrer. Mas um otimismo fundamentado, alimentado por ferramentas de diagnóstico mais precisas, por uma compreensão mais fina da biologia, por terapias que visam as causas e não apenas os sintomas, e por uma comunidade científica colaborativa.
Por trás de cada apresentação, de cada gráfico e de cada reunião, estão pessoas, e é para elas, e por elas, que continuamos a trabalhar.