Portugal é um país independente há nove séculos. Temos as mais antigas fronteiras do mundo. No plano político-jurídico nunca perdemos a nossa independência. Nem no período filipino, em que formalmente vivemos um regime de União Real. Nem com as Invasões Francesas, em que a Corte funcionou a partir do Brasil.Basta isto para que se possa afirmar que a Segurança e a Defesa têm, entre nós, uma longa tradição e que, consequentemente, detemos sobre elas um rico capital de conhecimento e de experiência. Um capital acrescentado pelo nosso prolongado percurso imperial.Como todos os percursos longos, o nosso tem naturalmente altos e baixos. Não pode ser surpreendente que o tempo que se seguiu ao fim do Império e à Revolução de 1974 tenha sido um período de alguma hesitação quanto à forma de melhor perceber e materializar estas políticas. O que se prolongou pelo tempo pós-Guerra Fria, em que tanta coisa foi naturalmente posta em causa.Ainda assim, Portugal, mesmo nessas condições, empreendeu um modelo racional para o Planeamento Estratégico Nacional, ferramenta até então inexistente, reconfigurou as suas Forças Armadas e tornou a sua diplomacia apta no plano multilateral.Mas a realidade é que não se consagrou e não está consagrada nas elites e nas forças partidárias portuguesas, uma visão clara quanto aos objetivos, âmbito e instrumentos da Segurança e Defesa. Isto apesar de, quanto a elas, sempre se ter mantido, como é vantajoso, um apreciável consenso interpartidário e um generalizado apoio da opinião pública.O tema não tem recebido suficiente atenção. Frequentemente por preconceito e por ignorância. Muitas vezes, por critérios eleitoralistas. Às vezes, também, por preguiça. Tudo somado, o tema da Segurança e Defesa está, em Portugal, muito desvalorizado tanto na substância, como no tempo.Manda, porém, a realidade que se vire essa página. Os quadros geopolíticos global e europeu, e os nossos compromissos e responsabilidades para com a União Europeia e para com a NATO assim o impõem. E é bom que se perceba, e que se observe, que o pensamento e a atitude que Portugal deve desenvolver e adotar não pode ser apenas uma resposta a estímulos externos. Bem ao contrário, devem ser compreendidos como uma oportunidade para Portugal se afirmar, naturalmente acautelando os nosso legítimos interesses próprios.Estamos numa época de mudança. Por definição uma época de ideias. Se, no plano dos recursos materiais temos óbvias limitações, o mesmo não é verdade quando o que está em causa são ideias. Nesse domínio somos, pelo menos, paritários com todos os nossos Aliados e parceiros. Talvez a nossa capacidade para pensar de modo criativo e rápido nos confira mesmo alguma vantagem. Que só será efetiva se for projetada num esforço planeado, reiterado e conduzido de modo persistente e sério.É tempo de interiorizarmos que a perificidade não é uma fatalidade geográfica. É tempo de percebermos que, nas condições do presente, o que realmente determina perificidade e é a ausência de conhecimento, de inteligência e de vontade. Ou seja, que se trata de passar do passivo determinismo da geografia, para o ativo possibilismo das pessoas.É tempo de assumirmos que a centralidade não é dada ou negada pela circunstância geográfica. Antes, que a centralidade é um valor que se constrói.No que respeita aos enormes desafios que no âmbito da Segurança e Defesa estão colocados a Portugal, seja no quadro estritamente nacional, seja nos contextos da UE e da NATO, podemos contar com um povo portador de patriotismo, bom senso e resiliência historicamente comprovados e com uma diplomacia e umas Forças Armadas preparadas, competentes, cosmopolitas e assim reconhecidas no mundo. Disto devem as elites e as forças políticas retirar como imperativo que lhes compete elaborarem uma visão ambiciosa e exequível para Portugal, apresentá-la ao país e promovê-la de modo empenhado e, em todo o exercício, mas em particular na sua materialização, tirar bom partido das instituições de que Portugal dispõe.