Nas últimas semanas, Portugal enfrentou um período de grande instabilidade climática. As tempestades deixaram um rasto de destruição e incerteza, mas, além do impacto físico, emerge um risco silencioso: a fragilidade digital. Sempre que o país treme, por fenómenos naturais ou crises económicas, a segurança e a privacidade da informação tornam-se ainda mais críticas.Num cenário de calamidade, o que primeiro rui é o próprio tempo. Torna-se curto, denso, imperativo. A urgência instala-se antes de qualquer plano e o improviso infiltra-se nas decisões, deixando margem zero. Decide-se mais depressa do que se pensa. É precisamente nesse intervalo, onde tudo acelera, que a nossa privacidade fica mais exposta.Essa vulnerabilidade não se limita ao físico; estende-se ao que guardamos no digital: dados, acessos e identidades. Mesmo quando a tecnologia resiste, e nem sempre o faz, é o fator humano que mais se fragiliza. Sob pressão, as prioridades mudam a cada minuto, a atenção fragmenta-se e as rotinas digitais desalinham-se, porque as pessoas são empurradas para o limite.Se o tempo encurta nas emergências, a prevenção tem de o alongar antes delas. Se a pressão fragiliza as decisões, a resiliência tem de estar embutida nelas. Em momentos de crise, a sociedade revela uma preocupante falta de preparação para reagir de forma informada. Em Portugal, a ausência de uma educação para a gestão do risco faz com que, perante a incerteza, o medo se sobreponha à razão. Em vez de respostas ponderadas, assistimos à propagação do pânico e da desinformação, que agravam a própria crise.A privacidade dos dados, por exemplo, não se suspende numa crise; pelo contrário, torna-se ainda mais vital. No caos, a tentação de contornar procedimentos “só desta vez” torna-se real, mas é nestes momentos que os princípios devem ser mais firmes. A proteção da informação não é burocracia, mas um pilar de confiança.Nestes dias turbulentos, vimos a importância vital dos serviços essenciais: hospitais que não podem parar, sistemas de emergência que não podem falhar, plataformas públicas que têm de funcionar mesmo quando tudo o resto parece desabar. E, no entanto, por detrás dessa robustez operacional, existem sempre ativos digitais que exigem o mesmo rigor com que protegemos vidas e bens.A continuidade de serviço não é um golpe de sorte. É um exercício permanente de preparação. E não há preparação sem planos de crise. Não aqueles documentos guardados em diretórios esquecidos, mas planos vivos, treinados, postos em prática, corrigidos, revisitados. Planos que preveem o improvável: a perda total de comunicações, a indisponibilidade de equipas, o colapso temporário de infraestruturas. Temos de antecipar aquilo que ninguém quer imaginar, porque é essa imaginação que preserva operações. A resiliência não nasce na crise; constrói-se antes dela.É preciso uma reflexão mais ampla. Uma parte da população encara a tecnologia como algo garantido e permanente, mas a realidade mostra o contrário. As tempestades lembram-nos que não existe transformação digital sem transformação cultural: sem literacia e sem um compromisso coletivo com a segurança. A proteção da informação é hoje tão estrutural como a eletricidade ou a água; sem ela, tudo o resto falha em cascata.Enquanto país, devemos olhar para esta calamidade com sentido crítico. Se há um momento para reforçar a cultura de segurança e capacitar pessoas, é agora. A grande lição é simples: não basta reconstruir o que foi destruído, é preciso reconstruir melhor. Com inteligência, planos realistas e investimento contínuo nas pessoas.A resiliência é o que fazemos antes da tempestade. A confiança é o que preservamos durante a tempestade. E o futuro é o que garantimos depois da tempestade.