Se conduzir, não beba!

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Parece completamente absurdo dar um título como este a uma crónica em pleno ano de 2026, não é, caro leitor? E tem toda a razão. Mas agora que tenho a sua atenção, vamos ao que lhe queria dizer: no ano passado, o número de condutores com excesso de álcool subiu relativamente ao ano anterior. E, mais preocupante do que isso, aumentou 9 pontos percentuais, de 21% para 30%, o número de condutores com menos de três anos de carta de condução apanhados nesta situação.

Ou seja, na época da informação desmedida, clara, transparente e de “uma das gerações mais bem formadas de sempre”, continuamos a cair nos mesmos erros de há 40 anos - a primeira campanha “Se conduzir, não beba”, foi lançada nos anos 1980.

Mas, além disso, tem-se juntado à condução sob efeito de álcool um outro fator menos falado e com menos efeitos em termos de sérias penalizações: os condutores que acreditam que podem estar a conduzir e a desempenhar outra tarefa que consideram particularmente importante, como enviar SMS, consultar as redes sociais ou mesmo falar ao telefone. E, nestes casos, a polícia é bastante mais permissiva, porque afinal se se atirar o telefone para o banco do lado quando se vê um carro das autoridades, é como se não se passasse nada, verdade?

Ou, se afinal, estamos apenas a olhar para o ecrã quando o semáforo está vermelho, não colocamos em risco a vida de ninguém, não é? Não. Um carro é uma arma que pesa, em média, duas toneladas - mais se estiver em velocidade. É capaz de magoar bastante ou de matar pessoas quando há uma distração que nos obriga, por 2 segundos que seja, a retirar os olhos da estrada. Que os condutores - mais novos ou mais velhos, mais ou menos experientes - não compreendam isto, é algo que me faz pensar seriamente na necessidade de haver uma campanha nacional que diga: “Se conduzir, não olhe para o telefone.”

Parece completamente absurdo falar sobre isto numa crónica em pleno ano de 2026, não é, caro leitor? E tem toda a razão. Mas a verdade é que as pessoas, por algum motivo, acreditam mesmo que durante o tempo que estão ao volante não podem deixar de usar o telefone, como se a sua vida dependesse disso - surpresa!, a vida depende mais de fazer uma condução segura e atenta, precisamente ignorando os telefones. Nos últimos dois anos e até ao início de 2026, o uso de telemóvel ao volante foi responsável por mais de 12 mil acidentes de viação, segundo dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.

As autoridades avisam - consistentemente, que utilizar o telemóvel enquanto conduz aumenta o risco de acidente 400%. Ou seja, há QUATRO vezes mais probabilidade de o seu caminho ser interrompido por um desastre provocado por si.

Numa única semana de campanha de fiscalização, já este ano, as autoridades registaram 2011 acidentes associados a distrações, que incluíram vítimas mortais e feridos graves - pessoas que ficam com danos, muitas vezes, para a vida.

Quarenta anos depois, talvez esteja na altura de mudar a campanha, e gritar bem alto: “Se conduzir, não escreva.” Ou, quem sabe, talvez resulte enviar um SMS. Com emojis.

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