Rumo a uma nova aliança marítima e tecnológica: a evolução das relações de defesa entre a Índia e Portugal

Puneet R. Kundal

Embaixador da Índia em Portugal

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As relações bilaterais entre a Índia e Portugal alicerçam-se em cinco séculos de história comum. Durante décadas, porém, a defesa ocupou um lugar discreto numa relação marcada sobretudo pela política, pela cultura, pelo comércio e pela diáspora. Esse cenário está a mudar. A visita de um navio-escola à vela em agosto, a que se seguiu, em outubro, a de um navio de guerra, a deslocação de uma delegação de 24 membros de uma escola de defesa indiana, um seminário em linha que aproximou as indústrias de defesa dos dois países e um drone de combate indiano a caminho de uma unidade fabril portuguesa são sinais claros de uma parceria que deixa o plano protocolar e ganha substância. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA já colabora com a Índia nas áreas da manutenção aeroespacial e das infraestruturas de telecomunicações.

O INS Trishul (F43), fragata lança-mísseis guiados da Classe Talwar, da Marinha da Índia.
O INS Trishul (F43), fragata lança-mísseis guiados da Classe Talwar, da Marinha da Índia.

O Grupo de Trabalho Conjunto (JWG) Índia-Portugal para a Defesa constitui o principal órgão de condução desta relação. Realizaram-se já três reuniões do JWG e estão em curso diligências para a realização da quarta. Entretanto, a diplomacia naval assumiu um papel de vanguarda. Só em 2026, navios da Marinha Indiana farão duas escalas em Lisboa: o navio-escola INS Sudarshini visitou Portugal em agosto de 2026 e o navio de guerra INS Trishul fará escala em outubro de 2026. Um navio-escola à vela e uma fragata de primeira linha abarcam, em conjunto, os dois extremos do espetro da cooperação naval. Ambos realizaram exercícios de passagem (PASSEX) com navios congéneres da Marinha Portuguesa. O Sudarshini estreitou laços no domínio do soft power e da formação; o Trishul proporciona agora familiarização operacional e oferece às duas marinhas a oportunidade de compararem práticas. Os dois países comungam de visões e interesses marítimos afins. A localização de Portugal nas rotas marítimas do Atlântico e a posição da Índia no oceano Índico conferem a ambos um papel central na segurança dos corredores marítimos e na salvaguarda da liberdade de navegação. A presença de navios da Marinha Indiana em águas portuguesas atesta, além disso, a crescente projeção externa da Índia e o seu empenho na segurança global, à luz da visão marítima MAHASAGAR (Progresso Mútuo e Holístico para a Segurança e o Crescimento entre Regiões).

Abriu-se recentemente um novo capítulo nas relações de defesa entre a Índia e Portugal. A empresa indiana Flying Wedge Defence & Aerospace (FWDA) anunciou uma parceria com a portuguesa SketchPixel LDA para fabricar em Portugal os drones autónomos Kaal Bhairava e Yama, destinados ao mercado mundial. Portugal afirma-se, assim, como ponte estratégica que permite à tecnologia de defesa indiana aceder às cadeias de abastecimento da NATO e, de forma mais ampla, às cadeias europeias.

Também os ecossistemas de defesa dos dois países, no seu conjunto, têm vindo a estreitar contactos. Realizaram-se reuniões empresariais entre delegações da idD Portugal Defence e da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da Índia (FICCI). Portugal tem sido um defensor constante do aprofundamento das relações entre a Índia e a União Europeia, e projetos e iniciativas como estes contribuem para reforçar, num plano mais amplo, a Parceria Estratégica UE-Índia.

Nenhuma relação se constrói sem a dimensão humana. Em outubro de 2026, Portugal recebeu, pela primeira vez, uma delegação de uma escola de defesa indiana: 24 oficiais do Exército, da Marinha e da Força Aérea do Colégio de Gestão da Defesa, uma prestigiada instituição de formação conjunta dos três ramos. A delegação foi recebida pelas mais altas chefias militares portuguesas e visitou várias instituições na área da defesa. Espera-se que a estas se sigam muitas outras iniciativas do género.

Cinco vertentes, cada uma num grau de maturidade diferente, estruturam hoje as relações de defesa entre a Índia e Portugal: um diálogo intergovernamental estruturado, as visitas de navios, uma iniciativa de cooperação entre empresas, um projeto privado no domínio dos UAV e o intercâmbio entre oficiais das forças armadas dos dois países. Estes eixos reforçam-se mutuamente: o JWG oferece aos governos um espaço para definir políticas, as visitas de navios geram confiança, os encontros entre as indústrias convertem a boa vontade em contratos e o contacto entre as forças armadas aprofunda o conhecimento mútuo. Na verdade ,Nova Deli e Lisboa pretendem estabelecer uma parceria de defesa virada para o futuro, com vista a reforçar ainda mais as nossas relações bilaterais.

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