Roma (e Copenhaga) contra Madrid

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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Ideologia e Razão de Estado são dois motores distintos da política externa das nações. A primeira tem que ver com uma concepção do mundo, atendendo a valores e princípios de orientação permanente; a segunda orienta-se pelos interesses imediatos do país e da sua política, sem querer impôr universalmente valores políticos.

Embora a ideologia como concepção do mundo, procedente de uma crença e de determinados valores e princípios, já estivesse presente nas Guerras Religiosas, a modernidade laicizada viu o aparecimento de Estados ideológicos – como a França revolucionária da Convenção e do Terror, que, ao defender-se das monarquias europeias, usou a exportação dos seus valores e princípios com algum sucesso; ou como a Rússia da Revolução Bolchevique de 1917, que lançou na Europa e no mundo uma guerra ideológica total, semeando o medo e gerando uma série de modelos autoritários anti-comunistas que congelaram os direitos e liberdades individuais.

Desta resposta in extremis à Revolução Bolchevique nasceram e singraram modelos radicais, revolucionários ou contra-revolucionários, como o fascismo italiano, as várias ditaduras militares e, com uma dimensão única no seu etnocentrismo ariano e nas suas fobias raciais, o nacional-socialismo hitleriano.

De resto, os dois regimes mais radicais enfrentaram-se entre 1941 e 1945. No conflito, o comunismo russo de Estaline e o nacional-socialismo alemão de Hitler revelaram aspectos curiosos e paradoxais: Hitler ignorou a Razão de Estado alemã na guerra, ao abrir, por razões ideológicas, uma Frente Leste, sem ter fechado a Frente Oeste; Estaline, para se defender de Hitler e mobilizar os russos, ignorou o internacionalismo proletário e apelou ao patriotismo e ao nacionalismo, pondo de parte a Ideologia.

Vem tudo isto a propósito do conflito entre Ideologia e Razão de Estado que agora decorre, com a moderação própria dos tempos: o conflito Espanha de Sánchez versus Itália de Meloni sobre imigração, fronteiras, Schengen.

Nos limites da respeitabilidade, Meloni, uma nacional-conservadora, liderando a coligação de direitas várias que governa a Itália, enfrenta-se com Pedro Sánchez, um social-democrata, liderando a coligação de esquerdas e separatismos que governa a Espanha.

Atenuadas as divergências sobre modelos económicos, a principal divisão ideológica parece proceder hoje dos conceitos de nação, de identidade nacional e de fronteira. Se há uma “Razão de Estado europeia”, ela está em debate tenso e fragmentador dentro da própria “união”, onde coexistem uma esquerda pós-marxista em decadência e recuo, um centrão que sobrevive e uma direita nacional-popular e nacional-conservadora em ascensão.

Ceuta e a invasão dos 72 mil marroquinos fizeram explodir a tensão Madrid-Roma.

O medo da reacção popular e do “voto na extrema-direita” (e Meloni é de “extrema-direita”, lembram sempre os noticiários, não vá alguém esquecer-se) tem obrigado o centrão, mais ou menos timidamente, a racionalizar e a “endireitar” certas medidas, partindo em defesa da Razão de Estado dos seus Estados.

Talvez por isso a primeira-ministra da Dinamarca, a social-democrata Mette Frederiksen, tenha alinhado com a direitista Meloni na defesa da “presença cristã na Europa”, e 22 dos 27 Estados da União tenham inicialmente condenado a Espanha.

Por cá, onde uma ideologia cada vez mais alheada da realidade e das populações ainda impera entre os comentadores, os comentários foram os esperados: a culpa é de Meloni, toda a imigração é bem-vinda, a integridade geral do Espaço Schengen nunca esteve nem está comprometida.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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