Resistir nem sempre é ganhar

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

Circula no espaço informacional uma tese sedutora: numa guerra entre uma força convencional e uma força híbrida, na ausência de uma vitória decisiva, vence quem resiste. A ideia é simples. E está errada.

Está errada porque assenta numa premissa pouco examinada: a de que o Irão seria o objectivo final deste conflito. Não era.

O erro está na confusão de planos. Há vários níveis de objectivos, e a sua sobreposição tem distorcido sistematicamente a análise.

O primeiro é estrutural. Não pertence a uma administração em particular, mas a uma linha de continuidade no pensamento estratégico norte-americano que atravessa mandatos e que a National Security Strategy de Dezembro de 2025 codifica com clareza invulgar: a economia é o terreno decisivo, a competição é primariamente tecnológica e de cadeias de abastecimento, e o adversário estrutural não está no Médio Oriente. O que está em disputa é a arquitectura de dependências energéticas globais e o controlo dos nós críticos que a sustentam.

Neste enquadramento, o Golfo Pérsico não é um teatro de operações secundário. É um instrumento de coerção económica. A disrupção dos fluxos de hidrocarbonetos não penaliza simetricamente todos os actores: atinge de forma assimétrica os grandes importadores líquidos, cuja vulnerabilidade energética os coloca em posição de inferioridade negocial estrutural face a Washington. O diferencial de impacto não é acidental. É o mecanismo.

O segundo nível é estratégico-operacional e corresponde à convergência de interesses entre Washington e Telavive: degradação da capacidade de projecção regional iraniana e desmantelamento progressivo da sua arquitectura de proxies.

Os efeitos são concretos e mensuráveis. O Hezbollah está sob pressão extrema de contenção; o Hamas opera com capacidade puramente residual e crescente dependência dos países do Golfo; os Houthis não tiveram projecção decisiva, reflexo do desgaste imposto em 2025.

A rede construída ao longo de décadas segundo uma lógica de dissuasão alargada revelou os seus limites estruturais quando sujeita a pressão simultânea e sustentada. Para Israel, este é mais um momento de um conflito contínuo de atrito estratégico. Não é um desfecho, é uma fase.

O terceiro nível é o da presidência de Trump. Aqui, à lógica estrutural sobrepõe-se uma prática transaccional orientada para ganhos de curto prazo e gestão de percepção. Há também uma dimensão pessoal, a procura de inscrição histórica, que encurta horizontes e introduz volatilidade num processo que, por natureza, se desenvolve em ciclos longos. A esta mistura acrescentou-se esta semana uma variável perturbadora: a utilização de declarações diplomáticas como instrumento de movimentação de mercados de commodities, com opacidade suficiente para suscitar dúvidas sérias sobre a fronteira entre retórica de Estado e oportunismo privado.

A leitura torna-se assim mais clara. Para Israel, trata-se de continuar a desgastar um adversário existencial por fases calculadas. Para os Estados Unidos, no plano estrutural, os objectivos de reposicionamento da arquitectura económica global estão a ser servidos independentemente da retórica do momento. A tentação de apresentar este episódio como definitivo pertence ao terceiro nível, não aos outros dois.

No terreno, o desbaste é real e mensurável. O regime iraniano sai desta fase militarmente degradado por uma geração, com a base económica estruturalmente penalizada, a legitimidade interna corroída e o prestígio regional reduzido a uma sombra do que projectava há cinco anos. A escalada horizontal que adoptou como resposta à impossibilidade de escalada vertical, e que os Guardiões nunca consentiram inverter, acelerou esse processo de forma irreversível.

Resistir nem sempre é ganhar. Por vezes é apenas sobreviver. E, neste caso, sobreviver significa persistir mais fraco, mais isolado e com menor capacidade de projecção. O regime pode perdurar. Mas sairá deste conflito irreconhecível.

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