Uma das mais inquietantes derivas intelectuais da contemporaneidade consiste na progressiva transformação da História numa instância de julgamento moral retro-activo. O passado deixou, para muitos, de constituir um objecto de inteligibilidade civilizacional para passar a funcionar como repositório simbólico de culpa, permanentemente reinterpretado à luz das sensibilidades éticas do presente.O problema não reside, evidentemente, no reconhecimento dos crimes históricos. A escravatura constituiu uma realidade moralmente abjecta e antropologicamente desumanizadora. O verdadeiro problema emerge quando o exercício historiográfico abandona a complexidade analítica em favor da moralização retrospectiva; quando a investigação histórica cede lugar à pedagogia ideológica.Assistimos hoje à consolidação de uma leitura marcadamente presentista da experiência Ocidental, frequentemente reduzida a uma grelha binária de opressão e vitimização. Trata-se de uma operação intelectualmente redutora, porque dissolve a densidade histórica das civilizações numa narrativa mono-causal de violência estrutural. Mais do que interpretar o passado, procura-se frequentemente submetê-lo às categorias morais dominantes do presente.Ora, este procedimento constitui um erro metodológico elementar. Nenhuma sociedade pré-moderna pode ser compreendida a partir das categorias jurídicas, antropológicas e políticas do século XXI. A consciência moral é historicamente situada. Exigir aos homens do século XV a interiorização dos princípios contemporâneos dos Direitos Humanos equivale a abolir a própria historicidade da experiência humana.Importa ainda recordar um facto frequentemente omitido no debate público: a escravatura não foi uma singularidade europeia, mas uma constante transversal à quase totalidade das civilizações humanas. Existiu em África, no mundo islâmico, na Ásia e no Mediterrâneo Clássico muito antes da Expansão Atlântica europeia. E foi precisamente no interior da tradição filosófica, jurídica e religiosa do Ocidente que emergiu, pela primeira vez, uma crítica universalista da escravatura enquanto instituição moralmente ilegítima. Sim, devemos ao Ocidente o combate à escravatura.A crescente tendência para converter comunidades nacionais em sujeitos metafísicos de culpa histórica revela, aliás, uma concepção profundamente iliberal da responsabilidade moral. A culpa não é hereditária. Não se transmite biologicamente através das gerações nem pode ser imputada colectivamente a indivíduos que não participaram nos acontecimentos em causa.Uma comunidade política madura e desenvolvida deve ser capaz de reconhecer criticamente os seus erros sem resvalar para formas de auto-demolição simbólica. Porque sociedades que aprendem a relacionar-se com o seu passado exclusivamente através da vergonha acabam inevitavelmente por perder a capacidade de projectar um horizonte comum de continuidade histórica.Quando a História abdica da procura da verdade para assumir funções de militância moral, deixa de ser História. Transforma-se em catecismo ideológico. E julgo que já estamos todos saturados disso. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico