Relação especial

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

Publicado a

No musical Hamilton, sobre um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos, há uma deliciosa cena em que Jorge III fica chocado com a notícia da reforma de George Washington, com John Adams a ser eleito o novo presidente. Para o monarca britânico, que ainda chorava a revolta dos súbditos americanos em 1776, isto das 13 antigas colónias serem uma república era quase incompreensível. Preferia imaginar Washington, o general que derrotara os Casacas Vermelhas, como uma espécie de rei. Porém, até morrer em 1820, Jorge III coincidiu com um total de cinco presidentes dos Estados Unidos.

Tirando uma pequena crise durante a Guerra Civil Americana, em meados do século XIX, com o fim do reinado de Jorge III ficaram para trás os momentos difíceis da relação entre os americanos e os britânicos, que incluíram uma segunda guerra entre 1812 e 1814. Nesta, a Casa Branca chegou a ser incendiada, mas os Estados Unidos gritaram vitória no final graças a uma batalha em Nova Orleães antes de chegar a informação da assinatura de um tratado de paz. Depois, gradualmente, os dois grandes países de língua inglesa foram-se aproximando, ao ponto de se tornarem aliados nas duas Guerras Mundiais e durante a Guerra Fria. Uma aliança tão forte, assente numa cultura próxima e em valores políticos partilhados, que ganhou a designação de “relação especial”.

"Esperar que Carlos III, agora de visita aos Estados Unidos, consiga junto de Donald Trump ultrapassar todas as tensões transatlânticas recentes é otimismo exagerado."
"Esperar que Carlos III, agora de visita aos Estados Unidos, consiga junto de Donald Trump ultrapassar todas as tensões transatlânticas recentes é otimismo exagerado."whitehouse.gov

Não foram, porém, duplas rei (ou rainha)-presidente a simbolizarem essa “relação especial”, até porque os sucessores de Jorge III foram perdendo influência real à medida que a democracia britânica se aperfeiçoava e todo o poder era do Parlamento, logo do primeiro-ministro. E, por isso, esperar que Carlos III, agora de visita aos Estados Unidos, consiga junto de Donald Trump ultrapassar todas as tensões transatlânticas recentes é otimismo exagerado. Mas algo de positivo pode mesmo assim advir do reencontro do rei e do presidente, que há poucos meses estiveram juntos numa visita de Trump ao Reino Unido. Trump, que reagiu com energia e determinação ao tiroteio em Washington que interrompeu o jantar anual dos correspondentes da Casa Branca, está plenamente consciente da importância da visita do rei no ano em que os Estados Unidos celebram dois séculos e meio. Apressou-se mesmo a reafirmar que a visita era para manter, provavelmente com alguns ajustes por razões de segurança.

As duplas primeiro-ministro britânico-presidente americano mais presentes na memória são Margaret Thatcher- Ronald Reagan na década final da Guerra Fria e Tony Blair-George W. Bush no pós-11 de Setembro. Mas a mais simbólica, aquela que verdadeiramente encarna o espírito da relação especial, foi a dupla Winston Churchill-Franklin Roosevelt durante a Segunda Guerra Mundial. Ficou célebre o episódio passado na Casa Branca, onde Churchill estava alojado. Surpreendido a sair nu do banho por Roosevelt, que procurou afastar o olhar, Churchill terá dito, com humor, que o primeiro-ministro britânico não tem nada a esconder ao presidente dos Estados Unidos.

Trump tem tido uma relação complicada com Keir Starmer. Que se degradou quando o presidente americano criticou as objeções britânicas ao uso de bases para as operações contra o Irão. Mas houve tempos de empatia mútua, muito visível na satisfação de Trump quando Starmer, de visita no ano passado à Casa Branca, transmitiu um convite do rei para uma visita. Sim, a realeza britânica parece seduzir o presidente americano e isso pode ser o caminho para uma reconciliação entre os dois velhos aliados.

Para quem se preocupa com o futuro da NATO, abalada com constantes trocas de picardias de um lado e do outro do Atlântico, o regresso da boa relação, diria até da relação especial, entre americanos e britânicos seria uma excelente notícia nestes tempos conturbados.

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