Na semana passada, o ministro adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, presidiu à primeira reunião da recém-criada Rede de Simplificação e Tecnologias do Estado. À volta da mesa estavam secretários de Estado, diretores-gerais e presidentes de organismos públicos. As câmeras fotográficas registaram o momento e os comunicados de imprensa celebraram a novidade, mas talvez a novidade não seja assim tão nova. Criada pelo Decreto-Lei n.º 85/2026, de 13 de abril, a Rede tem uma missão familiar, de apoiar a modernização da Administração Pública, desenvolver serviços públicos digitais e coordenar sistemas tecnológicos do Estado. Ao mesmo tempo, extinguiu-se o Conselho para o Digital na Administração Pública, criado em 2024 e discretamente arquivado pelo mesmo diploma. Mais um organismo substituído por outro. Os objetivos são difíceis de contestar. Evitar duplicações, reduzir fragmentação, promover interoperabilidade e coordenar áreas como a inteligência artificial ou a cloud soberana. O problema é que esta unanimidade pode esconder uma fragilidade. No famoso livro “A Praça e a Torre”, Niall Ferguson distingue dois modelos de poder: as torres hierárquicas e verticais, e as praças horizontais e colaborativas. As torres decidem depressa, as praças tendem a decidir melhor e muitas vezes as torres confundem rapidez com qualidade. Nos anos 90, Portugal teve uma verdadeira praça para a transformação digital do Estado, que foram os ERSI (Encontros de Responsáveis de Sistemas de Informação e Informática), em que, durante dois dias, longe de Lisboa e sem cerimónias mediáticas, técnicos e gestores públicos discutiam abertamente problemas reais, partilhavam soluções e construíam relações de confiança. No final, os membros do Governo ouviam e discutiam as conclusões. O objetivo não era aplaudir o poder, mas desafiar e melhorar as decisões. Os ERSI criaram algo raro, que foi uma comunidade de prática entre responsáveis de SI/TI do Estado. Promoveram normalização, interoperabilidade e coordenação numa fase decisiva da informatização da Administração Pública. Eram uma praça genuína, horizontal, crítica e produtiva. Não foi por acaso que nessa altura Portugal chegou ao primeiro lugar no ranking do governo eletrónico europeu e as suas inovações correram mundo. Essa lógica perdeu-se com a excessiva centralização da modernização tecnológica na AMA, Agência para a Modernização Administrativa, hoje renomeada ARTE. A praça desapareceu e ficou a torre, apenas rodeada por lobistas e empresas de outsourcing. Os responsáveis de informática dos organismos deixaram de ter um espaço próprio de encontro e reflexão independente. O trabalho colaborativo foi substituído por uma lógica centralizada e concorrencial, em que a agência se apropria do protagonismo e dos meios, ofuscando os organismos, que se limitam a executar e a obedecer. Não é por acaso que deixaram de existir funcionários comprometidos com o serviço público e passaram a ser substituídos progressivamente por trabalhadores em funções públicas. Anos depois, os problemas que agora justificam a nova Rede, como a fragmentação, a duplicação e a falta de alinhamento, são precisamente o resultado dessa centralização excessiva e da falta de empatia interorganizacional. A Rede de Simplificação e Tecnologias do Estado não é uma má ideia. O problema é que, apesar do nome, continua a funcionar como uma torre e não como uma praça ou uma verdadeira rede. A liderança política define prioridades, a comissão executiva coordena e os grupos técnicos limitam-se a executar. Falta um espaço real onde os responsáveis tecnológicos dos organismos possam discutir problemas concretos, contestar orientações e construir soluções a partir da experiência do terreno. Qualquer estrutura hierárquica rígida tem o mesmo risco. Quem ousa contradizer o ministro numa reunião formal? Quem levanta problemas incómodos? Provavelmente poucos. Era precisamente essa liberdade entre pares, longe do centro do poder e sem fotógrafos, que tornava os ERSI valiosos. Há também uma questão de durabilidade. Estruturas criadas por decreto duram o tempo da vontade política. O Conselho para o Digital durou menos de dois anos. As comunidades verdadeiras duram mais porque assentam em relações humanas, confiança e experiência partilhada. Esse capital social não se cria por decreto. Para que esta Rede seja diferente, talvez fosse preciso recuperar a lógica da praça, com encontros reais entre responsáveis de SI/TI da administração central e local, longe da formalidade, com espaço para debate franco e construção coletiva. O poder político deveria ouvir no final e não dirigir e condicionar desde o início. Esta crónica é também uma homenagem a todos e todas que organizaram e participaram nos ERSI nos anos 90. Sem redes sociais, sem smartphones, nem comunicação encenada, criaram uma comunidade genuína dentro de um Estado habituado a hierarquias e torres. Baseavam-se numa ideia simples, mas hoje quase radical, de que coordenar não é centralizar, liderar não é presidir e as melhores soluções raramente nascem nas salas onde o ministro ocupa o centro da mesa. A Rede de Simplificação e Tecnologias do Estado pode ainda ser uma boa notícia. Contudo, só o será se conseguir descer da torre e voltar a reconstruir a praça orientada ao serviço público, sem se deixar envolver e capturar por lobistas e grandes interesses privados.