Tendo perdido o Império Ultramarino há meio século, Portugal é hoje um Estado nacional em que as fronteiras político-geográficas coincidem com as fronteiras histórico-culturais da nação. Talvez essa unidade possa estar a ser posta em causa por uma política laxista de imigração, criando no interior do país ghettos populacionais que fogem à integração e à identidade, à semelhança do que já aconteceu noutros países europeus, como o Reino Unido, a França e a Suécia. Mas não é essa, aqui, a questão.A onda de desastres trazidos pelas tempestades que assolaram Portugal parece ter ressuscitado em alguns políticos e influencers um renovado interesse pela reforma do sistema através da criação de regiões - solução que no referendo de 8 de Novembro de 1998 foi recusada por ampla maioria (60,87% contra 34,97%).A Constituição de 1976 considerara - e bem - duas regiões autónomas, a dos Açores e a da Madeira, mas o projecto regionalista de 1998, apresentado por uma coligação de esquerda (socialistas, comunistas e verdes), era de oito regiões. No Porto, no Alentejo e no distrito de Viana do Castelo, o “sim” prevaleceu mas o “não” foi maioritário no país.De qualquer forma, o referendo não foi vinculativo, já que 51,71% dos eleitores ficaram em casa. Na altura, para mobilizar a Direita contra a regionalização, criei com o Manuel Monteiro e o Paulo Teixeira Pinto o movimento “Nação Unida”.Em países como a Alemanha, a Itália e a Espanha, a regionalização e os largos poderes das regiões são concebidos e articulados para garantir e consolidar a unidade do país. A Alemanha e a Itália são nações antigas, em que a identidade cultural da nação - a língua, o sangue, a cultura - surgiu bem antes da unidade política. Em Itália, a unidade política, o Risorgimento, deu-se entre a anexação da Lombardia em 1859 e a tomada de Roma em 1870.Na Alemanha (uma Federação que inclui 16 Länder, 13 Estados territoriais e três “cidades-Estado”, Berlim, Hamburgo e Bremen) a unificação só se deu com Bismark, em 1870-1871, após a vitória na Guerra Franco-Prussiana; depois de Weimar, do hitlerismo e da derrota em 1945, a Alemanha foi dividida entre a República Democrática Alemã e a República Federal da Alemanha e em 1990 o país foi reunificado pelo chanceler Helmuth Kohl.Estas soluções regionais - e mesmo federais - respondem ao desejo de unidade de comunidades políticas com grandes diferenças histórico-culturais.A regionalização é, assim, um recurso para permitir que territórios e populações de grande extensão territorial e com identidades culturais peculiares permaneçam unidos num mesmo Estado. Em Portugal, a unidade e identidade no rectângulo foram geradas ao longo de quase nove séculos.Mário Soares, em desacordo com o PS em 1998, disse-se favorável à descentralização, mas não à regionalização, que “iria criar uma nova classe de políticos, com tendência para retirar poderes às autarquias”; na mesma ocasião, sublinhou que Portugal tinha “a grande vantagem de ser um Estado-nação”, lembrando os problemas de Espanha com as “velhas nacionalidades”. No mesmo sentido, Cavaco Silva considerou que a regionalização era “um erro muito grande para o futuro do país”, e só “iria trazer mais classe política, que já temos suficiente, mais burocracia e mais dificuldades”.…Mas, quem sabe, talvez a multiplicação da classe política possa vir a ser útil para engrossar as fileiras de uns e fornecer munições a outros na guerra que os mais pessimistas já vislumbram no horizonte: a luta de classes entre a classe política e o resto dos portugueses. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia