Reencontro com Obama em Lisboa

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Reencontrei neste sábado em Lisboa Barack Obama. Continua inspirador. A multidão presente na Meo Arena aplaudiu-o várias vezes, sobretudo quando sentiu que havia críticas a Donald Trump, como o momento em que defendeu a necessidade de líderes jovens, já que os líderes velhos nem sabem lidar com o telemóvel.

Quando digo que reencontrei, exagero um pouco. Não tanto por estar a umas boas dezenas de metros do palco, mas também porque a primeira vez que o vi foi num ecrã numa sala de hotel em Austin, a ser noticiada a sua eleição para o Senado. Foi a grande ovação da noite, a única até, pois a festa democrata na capital do Texas não aconteceu. John Kerry falhou e George W. Bush foi reeleito, e a festa foi de novo republicana, num hotel vizinho, que também visitei. Estava em reportagem para o DN naquelas eleições de 2004.

Surpreendentemente, o senador júnior do Illinois ganharia as primárias democratas de 2008. E ganharia também as presidenciais. Não fui o enviado do DN dessa vez, mas já com Obama presidente fui a Washington e até comprei uma T-shirt que o mostrava vencedor num ringue de boxe contra John McCain. Hoje não tenho dúvidas de que o republicano McCain teria dado um excelente presidente, mas o apelo de Obama era inultrapassável. O seu slogan de campanha, o Yes We Can (Sim, nós podemos) conquistou votos na América e simpatia mundo fora.

Por falar em T-shirts com o slogan, vi quem as vestisse agora. Também uma com o rosto do próprio Obama. Quem a usava certamente percebeu a mensagem quando o antigo presidente americano criticou quem pensava num regresso a outros tempos, em que os negros estavam calados e as mulheres ficavam em casa. Certamente não será assim que se tornará a América grande outra vez, deixou bem claro um Obama que nasceu em 1961, no início da década chave da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Disse ter sido inspirado por Martin Luther King, também por Gandhi, igualmente por Lech Walesa, o eletricista que desafiou o regime comunista polaco. Noutro momento, Obama falou também de Mandela e como o inspiraram, ainda estudante de Direito em Harvard, os jovens militantes do ANC, que viajaram até à América para pedir sanções à África do Sul racista.

A raça é uma questão inevitável quando se fala de Obama. Defendi em 2000 uma tese de mestrado em Estudos Americanos que abordava os afro-americanos e como o general Colin Powell, apesar de muito popular, não ousou ser candidato presidencial em 1996 pelos republicanos. A mulher, Alma, ter-lhe-á dito que era perigoso, que os americanos não estavam preparados para um presidente negro. E, porém, em 2008 elegiam um. Incrível.

Obama é filho de um queniano que estava a estudar nos Estados Unidos e de uma branca do Kansas. Viveu na Indonésia em criança, quando a mãe voltou a casar, e boa parte da vida foi criado pelos avós maternos, classe média no Havai. Quem já falou com imigrantes africanos nos Estados Unidos sabe bem como os afro-americanos se consideram um grupo à parte, os descendentes de quem foi escravizado no país. Quenianos, somalis, ugandeses são vistos de lado. Também os negros de origem jamaicana, como Powell, cujos país vieram da Jamaica em busca do sonho americano como os imigrantes portugueses, irlandeses ou italianos. Obama também chegou a ser olhado com desconfiança pelos líderes afro-americanos. Um dos mais influentes, Jesse Jackson, que era próximo de Luther King, chegou a criticá-lo por se achar superior, mas depois pediu desculpa, ainda antes da eleição. Foi graças a Michelle, a mulher, com antepassados escravos nos Estados Unidos, que Barack Hussein Obama (um nome islâmico, legado paterno) ganhou popularidade junto dos negros americanos, que acabaram por ser decisivos nas eleição e reeleição. Essa mobilização não aconteceu em 2024, com Kamala Harris, a filha de um jamaicano e de uma indiana.

Obama foi eleito como liberal, o que nos Estados Unidos é sinónimo de esquerda. E deixou claro na conversa em Lisboa que não abandonou os seus ideais, quando falou dos direitos dos homossexuais, quando denunciou a injustiça que é as mulheres receberem salários abaixo dos homens, ou quando defendeu a igualdade de oportunidades. Mas não deixou de criticar os políticos de esquerda que fazem discursos bonitos, mas não respondem às preocupações das pessoas. No seu legado presidencial, o Obamacare provavelmente sobressai, digo eu. Foi uma tentativa de dar acesso a cuidados de saúde à maioria dos americanos. Não foi o imaginado, mas merece aplauso. Tal como merece aplauso a forma como ajudou a economia a sair da crise do subprime.

Em palco, estava o homem que logo no início do primeiro mandato prometia tanto mudar o mundo que recebeu o Nobel da Paz, mas que, quase inevitável quando se ocupa a Casa Branca, fez guerras. Na Líbia contra Khadafi com aval da ONU, e também no Iraque e na Síria contra o Estado Islâmico. Explicou agora que não interveio como queria contra o regime de Assad na Síria por ser uma guerra civil, e um presidente americano para começar uma guerra precisar de autorização do Congresso - houve uma salva de palmas, por quem ouviu aqui uma crítica a Donald Trump e à forma como se iniciou o atual conflito com o Irão.

Foi mais de uma hora a ouvir Obama. O carisma está todo lá, uma década depois de se reformar da política. O saber comunicar também continua evidente. Gostei das críticas aos magnatas da Big Tech, que deviam ler mais romances e ouvir boa música. Também apreciei Obama elogiar a Inteligência Artificial, mas como complemento à ação dos humanos, não como substituta. E pedindo a americanos e chineses que colaborem para a sua regulação, evitando abusos.

No início e no fim, Obama disse “obrigado” em português. E descreveu Portugal como um dos seus países preferidos. Esteve cá como presidente em 2010 para uma cimeira da NATO, fez uma escala nos Açores ainda na Casa Branca, depois veio ao Porto em 2018 para uma conferência, e agora participou neste Game Changers organizado por Miguel Pina Martins. A ligação a Portugal vem de David Simas, filho de emigrantes portugueses que foi do seu diretor do gabinete de estratégia política e depois presidente da Fundação Obama. E o próprio Obama em palco relembrou que tinha igualmente um lusodescendente como secretário da Energia, Ernest Moniz, e que o seu fotógrafo oficial era Pete Souza, nascido em New Bedford, de pais açorianos. E, claro, recordou em tom brincalhão, os dois cães de água portugueses que deliciaram as filhas Malia e Sasha, crianças quando o pai se tornou presidente.

Foi um belo reencontro. Sem dúvida, é inspirador. Por isso foi tão aplaudido neste sábado. E em 2004, na tal sala de hotel em Austin, triste até ele Obama aparecer no ecrã. Já tenho planos para um dia ir a Chicago visitar o Centro Presidencial que perpetua a sua memória.

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