Sim! Para quem faz um consumo passivo das redes sociais está a comprar o bilhete de entrada para o concerto da festa popular, mas sem encontros, sem conversas, sem abraços, nem risadas.As redes sociais podem dar a ilusão inicial de que se está acompanhado, que se fez muita coisa, até sentir algum cansaço, mas não saiu do sofá, nem interagiu verdadeiramente com ninguém.Há uma clara diferença entre o uso ativo e passivo. O uso ativo acontece quando se fala com alguém, comenta-se com intenção, enviam-se mensagens, combina-se um encontro, partilha-se algo que permite uma conversa real, e assim, ajuda a manter vínculos. Por outro lado, no uso passivo desliza-se pelo ecrã, para ver histórias, observar vidas alheias, fazer comparações, acumular imagens e opiniões sem participar nelas. É ser um mero espectador, rodeado de gente, mas sentado sozinho. A solidão aparece numa montra infinita, dada pelo algoritmo, a ser conduzida pelo polegar.Este uso passivo pode criar a tal ilusão de proximidade, mas é sem reciprocidade. Consegue ver onde alguém foi jantar, que promoção recebeu, que um dos filhos fez anos, que cidade visitou. Mas essa informação não cria intimidade. A intimidade exige troca, vulnerabilidade e resposta. Exige que o outro o veja também. Sem isso, é ser espectador numa sala cheia: rodeado de sinais humanos, mas sem o verdadeiro encontro.A investigação tem associado o uso passivo das redes sociais a maior sentimento de inveja, menor bem-estar e sentimentos de isolamento. É importante referir que as redes sociais não são, por si só, a causa universal da solidão e que a capacidade de estar sozinho, consigo próprio, é também reparadora.A questão surge quando há a substituição da relação pela observação. Alguém pode viver rodeado de pessoas e sentir-se profundamente só ou pode passar uma tarde sozinho e sentir-se inteiro. O que pesa não é só a quantidade de contacto, mas a qualidade da ligação. E o uso passivo das redes sociais é pobre nessa qualidade: oferece estímulos, novidade e presença aparente, mas dá pouca escuta, pouco cuidado e pouca resposta relacional.Há ainda outra questão: o efeito do tempo. Cada minuto passado a ver vidas alheias pode ser apenas entretenimento, mas muitos minutos repetidos podem roubar espaço a outras formas mais nutritivas de relação. Uma chamada. Uma caminhada. Uma conversa verdadeira. Um café sem notificações em cima da mesa. As relações precisam de tempo e presença e não apenas de sinais digitais.Pode-se sair de meia hora de consumo digital mais informado, mais excitado, mais irritado, mas paradoxalmente, menos acompanhado, mais só.Após o consumo das redes sociais, mesmo que seja activo, importa questionar: “Como fico depois de estar com o ecrã na mão? Fico mais próximo dos outros? Fico mais disponível para a minha vida? Fico com vontade de participar no mundo ou apenas de me comparar com ele? Saio dali com mais humanidade ou com mais ruído?”A resposta passa por transformar consumo em contacto. Trocar o scroll por uma mensagem. Responder a uma publicação com uma conversa real. Deixar de seguir contas que alimentam toxicidade. Criar limites para o uso automático. Perguntar, antes de abrir a aplicação: “Estou à procura de ligação ou de anestesia e de escapar de algo da vida real?”Estar a ver os outros não é o mesmo que estar com os outros. A presença humana não se mede apenas pelas atualizações, pelos likes ou pelas visualizações. Mede-se pela possibilidade de dizer “estou aqui” e receber de volta alguma forma de “eu também”.Desfrutar de uma festa popular é ver rostos, ouvir vozes, dar e receber abraços, é dançar, é cantar, é estar na multidão com encontros, é dar descanso ao polegar, é sair por um momento do ecrã, é fortalecer vínculos, e permitir-se ser visto por alguém, mais do que só ver pessoas e o fogo de artifício..Pais, nestas férias, arranjei um 'part-time' 'online': 4h de ecrã na mão, posso ir?