A reabertura da colecção permanente do Museu Calouste Gulbenkian é mais do que o regresso de um espaço renovado. É a devolução ao público de um dos mais importantes discursos visuais sobre a história da arte que Portugal possui.Um museu nunca é apenas um edifício onde se conservam obras: é, sim, uma forma de organizar o olhar. A sucessão das peças, da Antiguidade ao século XX, não resulta de um simples critério cronológico ou estético; constitui uma narrativa da civilização. Cada sala estabelece relações, aproxima culturas e demonstra que a arte é uma linguagem contínua, onde os séculos dialogam entre si. É essa continuidade que a reabertura restitui.Num tempo dominado pela velocidade das imagens e pelo consumo instantâneo da cultura, voltar a percorrer a colecção Gulbenkian significa recuperar o tempo da contemplação, do que eleva a alma, da sabedoria e do melhor que o ser humano é capaz. Ver um Rembrandt, um Guardi, um Rubens, um Turner ou os extraordinários vidros de René Lalique não é apenas encontrar obras-primas; é reencontrar uma tradição cultural de que Portugal faz parte.José-Augusto França lembrava que a História da arte é, antes de tudo, uma história do olhar. Talvez seja essa a maior actualidade desta reabertura: o museu continua a ensinar-nos que olhar exige conhecimento, comparação, diálogo, respeito e memória. Não basta ver; é preciso compreender.A Gulbenkian ocupa, desde 1969, um lugar singular na cultura portuguesa. Formou gerações de historiadores, artistas e visitantes, elevando o padrão museológico nacional sem recorrer à ostentação. A arquitectura, o jardim e a colecção constituem uma unidade rara, onde a discrição vale mais do que o espectáculo. Reabrir esta colecção é, por isso, muito mais do que inaugurar novos espaços. É reafirmar que uma sociedade se mede também pela forma como preserva e transmite a sua herança artística.Porque um país que regressa aos seus museus regressa, inevitavelmente, à consciência da sua própria cultura.. Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico