Radiografia ao setor financeiro: as pessoas, primeiro

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Foi dado a conhecer, recentemente, um estudo à laia de radiografia ao emprego e remunerações praticadas no setor financeiro em Portugal. Conquanto não tenha trazido novidades e apenas usado dados há muito públicos, vale a pena enfatizar alguns aspetos e retirar algumas ilações.

Entre 2012 e 2024, os balcões bancários passaram de 5571 para 2751, uma redução superior a 50% da rede física. Se para uns isto é o resultado da busca de menores custos devido à digitalização e alteração dos comportamentos dos clientes, no meu entender é também um fator de perda de coesão territorial, de enfraquecimento do tecido económico, de perda de proximidade às populações, bem como de maior pressão sobre os bancários remanescentes para providenciarem os mesmos serviços, com muito menos meios.

O estudo também evidencia que mais de 70% dos trabalhadores do setor são especialistas ou técnicos em atividades de natureza intelectual ou científica. Este número ilustra a elevada qualificação dos trabalhadores bancários (e não só) e a sua natureza diferenciada, mas impõe que as instituições e os trabalhadores continuem a sua aposta de requalificação e de promoção profissional.

Importa destacar, a este propósito, que existem empresas do setor que continuam a classificar como “administrativos” trabalhadores a quem exigem domínio de línguas estrangeiras, raciocínio lógico avançado e capacidade de compreender e laborar em processos complexos. Naturalmente, a formação contínua, financiada pelos empregadores, deve continuar a ser exigência dos sindicatos e dos melhores de entre os gestores do setor.

De referir ainda, a terminar, o facto de o estudo relembrar as remunerações médias. Face ao elevado valor acrescentado do setor, é perfeitamente natural que as remunerações médias sejam mais altas do que a média nacional, na qual são tidas em linha de conta, de forma decisiva, as microempresas sem intensidade de capital e os setores de baixa produtividade.

Gostaria de salientar que para a determinação das remunerações médias mensais (12 meses) se adicionam remunerações brutas mensais de 14 meses, mais custos conexos, e se ignora que prémios não contam para a formação de pensões, ou que os salários em posições iguais, nas mesmas empresas em Espanha, são superiores em 40%. Ou que a fiscalidade no país vizinho é cerca de dez pontos mais baixa para os níveis de remuneração médios mensais.

E que, qual cereja em cima do bolo, na última década as remunerações médias no setor cresceram ao ritmo de 2,4% ao ano versus 5,3% para a média dos trabalhadores em Portugal.

Agora imaginem o quanto estes números (emprego e remunerações) serão piores, no futuro, se o malfadado anteprojeto Trabalho XXI vingar...

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