Rabat a uma MINURSO de distância de Moscovo

Raúl M. Braga Pires

Politólogo arabista. Professor no Instituto Piaget de Almada

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Decorreu em Moscovo, entre 28 e 29 de outubro, a 3.ª Cimeira Rússia-África, um fórum económico e humanitário.

Um timing e uma ocasião perfeita para Marrocos, e uma primeira viagem de alto perfil, da primeira primeira-ministra de Marrocos, Fatima-Zahra El-Mansouri, que “daria um bacalhau” a Putin, em nome da mão do rei, e no 30 seguinte, o Conselho de Segurança, votaria a extensão da Missão da MINURSO para o referendo no Saara. Enquanto iniciativa das Nações Unidas, esta missão, operacionalizada em 1991, tinha contrato até o passado dia 31. A votação foi efectuada na véspera, sob proposta americana e vetada pela Rússia, que no contexto da Cimeira, viu reunião prévia à votação, entre Bourita, MNE marroquino e Lavrov, MNE russo.

O assunto é marroquino, mas volta a ser joguete, agora no âmbito do policonflito, das plutocracias. Um novo-burguês, educado nos clássicos, vai sempre desprezar as propostas de um “novo-rico-chave-na-mão”!

Retirar desde já da equação, um corte de relações diplomáticas entre Marrocos e Rússia, como foi de imediato desinformada a blogosfera. Vai haver tensão e cara-feia, até ao próximo capítulo, e algum ruido, sinais de travão para a ruptura.

Destes encontros entre grandes e menos grandes, sobressaem sempre os grandes negócios, os cifrões, os rácios consumo/km. Nesse âmbito, a Etiópia da fome, do Live Aid e do Bob Geldof, da nossa infância/adolescência, não é mais. Engordaram como um tijolo-burro, são BRICS agora, e o PM Abiy Ahmed, anunciou ao lado de Putin, a compra de 12 caças SU-35 e 4 batarias de defesa aérea, fazendo deste celeiro africano, o primeiro subsaariano a operar aviões de guerra, de 4ª geração.

Ainda no âmbito, “pobres ricos”, o presidente Putin anunciou que África representa para a Rússia, 27 mil milhões de dólares, e que pode duplicar esse valor. Essa vontade foi acautelada com a assinatura de 3 documentos principais, uma declaração da 3.ª Cimeira, uma declaração sobre Inteligência Artificial (desenvolver a cooperação na utilização civil da IA), e um plano de acção do Fórum de Parceria Rússia-Áfica para 2027-29, enquanto definidor de prioridades para o próximo biénio.

Tudo isto é palpável, existe e tem sido exequível, porque tem sido visível. A prioridade IA, aí está nas considerações e interrogações para o futuro. O que não vi nesta Cimeira, foi abordar-se o invisível que está por vir, já que a China está no mesmo patamar que Rússia, relativamente a África, mas tem na manga um sistema SWIFT próprio, pronto a aplicar exclusivamente em África, para as trocas comerciais com o Império do Meio, que não ganha terreno, ganha espaço, que se converte em poder!

Escreve de acordo com a antiga ortografia