Quero anunciar uma conspiração

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Nas agendas mediáticas passou incógnita a maior conspiração do nosso tempo. Desta vez, por uma vez, uma conspiração positiva e absolutamente poderosa. Uma força do bem que nos ofereceu um sinal que, para pena minha, embora sem surpresa, ameaçamos não compreender na sua fortíssima transcendentalidade.

No passado dia 18 de fevereiro, celebrámos o início da Quaresma, a Quarta-Feira de Cinzas festejado por cristãos de rito católico, ortodoxo e protestantes. O que é extraordinário é a coincidência de, neste ano, o Ramadão e o Ano Budista, o ano do Cavalo de Ferro, terem começado precisamente no mesmo dia. Para acentuar a curiosidade, o Novo Ano Chinês foi festejado no dia anterior, terça-feira, 17 de fevereiro. E a Páscoa Católica e Judaica este ano festejam-se no mesmo dia. Não é comum tal sobreposição de datas entre religiões e modelos de civilização e poder antagónicos… por isso, por acreditar nos sinais, espero que seja um grito de esperança do universo, um apelo a favor da união, da concórdia e de um novo tempo.

Fez-me recordar, e saudar, homens que ofereceram a sua vida por acreditarem na força da pergunta, no espírito científico, na curiosidade sem dogmas. Giordano Bruno ardeu na fogueira por nos dizer que o Universo era infinito e estava em expansão contínua. Homens como Copérnico e Galileu arriscaram ir contra as convenções e, nem que seja por isso, temos o dever de lhes fazer justiça e procurar sinais que nos despertem a curiosidade. Temos a responsabilidade de olhar as estrelas, de as observar para melhor ver o interior da vida cá em baixo e o nosso próprio interior. Foi quando os nossos marinheiros olharam e viram as estrelas que nos fizemos ao mundo e o alargámos.

Por vezes, tantas vezes, esquecemo-nos de levantar a cabeça. E perdemos a possibilidade de entender quando o universo conspira a nosso favor. De reconhecer o trabalho de tantos investigadores que não desistem de olhar as estrelas sabendo que o tempo não os premeia com honrarias e aplausos públicos. Leio sobre o trabalho da brilhante cientista brasileira Tatiana Sampaio, revolucionária no uso de uma proteína, a polilaminina, que está a usar, com resultados muitíssimo animadores, na recuperação de doentes com lesões na medula. Acredita-se que as tetraplegias do futuro poderão, afinal, não ser fatais e incuráveis.

O universo é infindável, as hipóteses são infinitas, assim como as perguntas sem resposta e as que nem sequer ainda conseguimos formular.

Luís Portela, dono da Bial, sabe-o bem.

As suas equipas inventaram medicamentos que melhoraram a qualidade de vida dos doentes epiléticos e com Alzheimer, mas nem por isso deixou de regressar, no final da sua vida, ao espiritual. Os seus livros fazem pensar na mesma proporção de frases que nos ficam na cabeça, como a do insuspeito Keynes que falava de um fio invisível na Economia. Nem por acaso a Economia é uma das áreas científicas em que os especialistas, por mais doutoramentos e nobéis que consigam, falham quase sempre as previsões.

Isto tudo é um apelo à esperança, um grito de esperança. O poder da esperança é também força cooperativa. Contra os ventos e as marés contrárias. A maré da intolerância, da distração e da ignorância que esquece os que alimentam a Humanidade, mas que realça e oferece mediatismo - e seguidores - a quem aliena a Humanidade.

A cientista brasileira, que ameaça ficar na História, tem algumas centenas de seguidores, enquanto figuras irrelevantes e estruturalmente vazias têm milhões de pessoas atentas a todos os seus passos.

Estranho mundo este, magnífico mundo este. Que possam ser mais os curiosos e humildes porque, não tenhamos dúvidas, o universo expande-se e está aí para que o possamos ler, em todos os seus sinais.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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