Na noite de 12 de Fevereiro de 2026, em Lyon, a morte de um estudante de 23 anos, Quentin Derranque, após agressões sofridas durante confrontos políticos, transformou um episódio criminal num símbolo inquietante do clima de radicalização em França. Segundo elementos conhecidos, o jovem pertencia a um grupo de extrema-direita e terá sido atacado quando se encontrava isolado, sendo os seus presumíveis autores militantes do grupo Jeune Garde, de extrema-esquerda. A investigação judicial prossegue, mas o caso já assumiu dimensão política e expôs ligações incómodas entre activismo de rua e estruturas partidárias.Entre essas ligações destaca-se o percurso de Raphaël Arnault, co-fundador deste grupo Jeune Garde (criado em Lyon com o objectivo de combater a extrema-direita nas ruas) e eleito deputado em 2024 pelo movimento La France insoumise, liderado por Jean-Luc Mélenchon.Este grupo tem sido referido em processos judiciais e queixas relacionadas em confrontos violentos, incluindo condenações por violência em grupo, envolvendo membros seus declarados ao que muitos apelidam de “braço armado do movimento La France Insoumise”. Talvez por esta razão, embora nunca assumido ostensivamente, Mélenchon e o seu partido opuseram-se publicamente à dissolução desta organização, decretada pelo governo francês em 2025, invocando a liberdade de associação e defendendo a legitimidade da mobilização anti-fascista.Este caso sobre o linchamento deste estudante, num momento em que estava sozinho e sem o seu grupo, levanta questões sérias sob várias ópticas, mas queremos destacar a seguinte: a ambiguidade de sectores políticos perante movimentos que, embora se apresentem como militantes ideológicos, mantêm historial de confrontação física. Discursos que apelam à mobilização combativa de apoiantes jovens podem, mesmo quando formulados em linguagem política, contribuir para legitimar uma cultura de antagonismo militante.Se isto é, e bem, amplamente recriminado pela imprensa sempre que estão em causa grupos neo-nazis ou de extrema-direita, torna-se no mínimo estranho que, quando os acontecimentos envolvem grupos de extrema-esquerda, se observe silêncio ou apenas referências superficiais por parte dos órgãos de comunicação nacionais. Em matéria de violência não há, nem pode haver, uma que seja condenável e outra que não o seja, consoante a proximidade aos nossos ideais ou simpatias ideológicas. A morte ocorrida em Lyon deve servir de advertência clara. Sempre que dirigentes, sejam eles da extrema-esquerda ou de extrema-direita, toleram, relativizam ou inflamam retóricas de hostilidade, criam terreno fértil para que militantes ou seus simpatizantes convertam convicção em violência. A responsabilidade penal pertence a quem agride; a responsabilidade moral e política pertence também a quem, pelo discurso, exemplo ou pensamento, molda atitudes. Num tempo de radicalização crescente, a contenção verbal e o sentido de Estado não são virtudes opcionais: são deveres democráticos. E deveríamos todos compreender isso. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico