Em Portugal, dizer que os políticos são incompetentes tornou-se uma explicação para quase tudo. Poupa-nos o trabalho de perceber como são escolhidos, a quem respondem e o que fazem com o poder que recebem. O estudo "Quem Governa Portugal? Perfis ministeriais em perspetiva comparada (1976-2025)", publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e coordenado por Marcelo Camerlo e António Costa Pinto, vem complicar essa explicação. Nas 507 observações analisadas, cada uma correspondente à ocupação de uma pasta num determinado Governo, 38% integram o perfil de "político-especialista" e 26% o de "perito". A preparação existe, resulta de percursos académicos, profissionais e de gestão, e convive com a experiência partidária. Perante estes dados, a discussão sobre quem nos governa tem de ir mais longe. Uma elite pode estar preparada para chegar ao Governo e continuar a ter dificuldade em dar ao país uma direção.
Os resultados obrigam, desde logo, a alguma honestidade com os partidos. Entre os perfis com inserção política, cerca de 60% apresentam também credenciais de especialização. A militância não apaga o conhecimento, tal como a ausência de cartão partidário não torna ninguém especialmente apto para dirigir um ministério. Há uma aprendizagem política que merece ser defendida: conhecer instituições, negociar interesses e aceitar que uma decisão tem de encontrar apoio para produzir efeitos. Quem despreza tudo isto costuma descobrir, já no Governo, que a autoridade formal resolve menos do que imaginava. Mas defender os partidos implica exigir-lhes mais. A confiança de um líder pode explicar uma nomeação, dificilmente chega para a justificar perante o país. Interessa perceber se o escolhido sabe trabalhar com quem discorda, assumir o custo das suas decisões e prestar contas a quem não participou na sua escolha. É neste ponto que o currículo deixa de responder às perguntas mais importantes. O estudo analisa experiências anteriores à nomeação e reconhece que os resultados sobre a relação entre perfis e governação democrática são exploratórios, sem permitirem conclusões lineares. Não podemos transformá-lo num certificado de qualidade dos sucessivos governos. Saber muito sobre uma área não dispensa saber o que se quer fazer com ela. E conhecer os equilíbrios de um partido não garante a capacidade de construir uma maioria no país. Creio que a exigência sobre as elites governativas deve começar precisamente aqui: na capacidade de transformar preparação em vontade política, explicar escolhas e responder pelo que ficou por fazer.
Quando a defesa de um ministro se resume à qualidade do seu percurso, estamos ainda a discutir as razões pelas quais foi escolhido. Falta discutir o exercício do poder.
A seleção torna-se ainda mais reveladora quando olhamos para quem teve de esperar à porta. Nos elencos iniciais dos governos analisados, as mulheres representam apenas 15% das nomeações ministeriais entre 1976 e 2025. Os progressos recentes são reais e seria injusto apagá-los numa média de quase cinquenta anos. Ainda assim, metade das ministras possui doutoramento, contra cerca de um quarto dos homens. Os autores veem nesta diferença um indício de exigências acrescidas no acesso feminino ao poder. O dado devia incomodar quem invoca o mérito como se ele fosse reconhecido nas mesmas condições para todos. Se uns precisam de acumular mais provas para serem considerados, temos de perguntar quem define a suficiência das provas dos outros. Uma elite não se fecha apenas quando exclui expressamente alguém. Pode fechar-se na facilidade com que reconhece capacidade nos percursos que lhe são familiares.
O envelhecimento dos governantes coloca uma questão semelhante. A idade média atingiu 54,8 anos no primeiro Governo de Luís Montenegro, em 2024, numa tendência que o estudo identifica ao longo de várias décadas. A experiência tem valor e seria absurdo fazer da juventude uma qualificação suficiente. Mas a experiência também precisa de uma primeira oportunidade. Um sistema que exige responsabilidades anteriores e adia continuamente o momento de as entregar acaba por selecionar dentro do mesmo círculo. Os partidos, incluindo as suas juventudes, têm aqui uma responsabilidade concreta, a de formar pessoas com pensamento próprio e dar-lhes espaço para o exercer. A renovação perde substância quando recompensa sobretudo a capacidade de reproduzir a linguagem, as lealdades e os silêncios de quem já manda. Podemos ter dirigentes mais novos sem alargar verdadeiramente as formas de pensar o país. Este estudo merece ser lido pelos partidos com mais exigência do que satisfação. Reconhece preparação nas elites governativas e permite discutir melhor os mecanismos pelos quais chegam ao poder. Cabe-nos retirar daí uma consequência política: quanto mais qualificada é uma elite, menos aceitável se torna que o currículo encerre a discussão sobre o seu desempenho. Os cidadãos devem poder perceber por que foi escolhida uma pessoa, que projeto assume e por que resultados aceita responder.
E os partidos devem demonstrar que conseguem encontrar competência para além das relações que já conhecem. A democracia precisa dessa abertura para renovar a autoridade de quem governa. Portugal não pode dar por resolvido o problema das suas elites porque encontrou pessoas preparadas dentro do Governo. Precisa de saber o que fazem pelo país e quanto talento continuam a deixar à porta.