Há uma frase icónica da ficção televisiva dos anos 90 que marcou pelo menos duas gerações, mas que hoje soa quase como um dialeto alienígena: Trust No One.
Quando Chris Carter colocou Fox Mulder e Dana Scully a percorrer armazéns sombrios e corredores cinzentos do Pentágono, repletos de caixas com segredos de Estado (cenário, aliás, inspirado no final de Raiders of the Lost Ark – Os Salteadores da Arca Perdida, de Spielberg), The X-Files (Os Ficheiros Secretos) não era apenas uma série sobre extraterrestres ou aberrações genéticas. Era, acima de tudo, um tratado sobre a necessária, higiénica e saudável desconfiança do poder.
Nos anos 90 – a era da ingénua proclamação do "fim da história", do triunfo presumido das democracias liberais e de um otimismo complacente pós-Guerra Fria –, a ficção teve a clarividência de nos lembrar de uma verdade atemporal: o monstro burocrático mente, e mente sempre. O poder oculta, manipula e preserva-se a si próprio a todo o custo.
Três décadas passadas, olho para a cultura popular e para o debate público com uma conclusão desoladora: desaprendemos a duvidar. Pior! Fomos ensinados a desejar a tutela.
Precisamos urgentemente de um novo X-Files. Não para procurar discos voadores ou homenzinhos verdes (perdão, cinzentos), mas para desmantelar a ficção perigosa – e sobretudo suicida – de que o poder institucional existe para cuidar de nós.
A evolução das últimas décadas é sintomática e revela um empobrecimento programado do espírito crítico dos cidadãos. Se os anos 70 foram marcados por uma rebeldia cínica e desconfiada e os anos 80 pelo individualismo pragmático do mérito – isto nos EUA e na Europa Ocidental, ainda que menos em Portugal, por razões que já cheguei a aflorar num artigo no DN sobre o ano em que a verdadeira democracia chegou –, os anos 90 ofereceram-nos uma autonomia reflexiva rara: a consciência lúcida de que o cidadão comum precisava de manter os olhos abertos perante um Estado (ou melhor, um Governo) que crescia em opacidade, ambição e alcance tecnológico.
E The X-Files não foi um fenómeno isolado. A ficção daquela década parecia partilhar o mesmo desassossego cívico. Em Nowhere Man, a vida de um fotojornalista era cirurgicamente apagada no espaço de uma tarde após testemunhar uma execução sumária governamental; em Dark Skies, a história contemporânea era reescrita como uma vasta encenação orquestrada pelo Majestic 12, onde tecnocratas decidiam que a população não tinha maturidade para conhecer a verdade; Millennium crivava uma sociedade para-estatal infiltrada nas agências públicas sem qualquer escrutínio democrático; La Femme Nikita levava a "razão de Estado" para um vazio legal absoluto, gerindo vidas humanas como mero inventário descartável… Nestas séries, o maior perigo para o cidadão comum não vinha de fora, mas do secretismo arrogante dos seus próprios governantes.
Hoje, pelo contrário, o entretenimento de massas, tanto na televisão como no cinema, parece saído de um rolo compressor a papel químico. A cinematografia perdeu textura e contraste, a iluminação digital tornou-se propositadamente plana com o ponto de foco ao centro para ser depois fácil caber no ecrã de um telemóvel, e os guiões parecem exercícios burocráticos de preenchimento de conformidades morais desenhadas por departamentos corporativos de relações públicas. Nem o célebre Código Hays da Hollywood dos anos 30 conseguia fazer algo tão homogéneo!
Esta domesticação narrativa assenta em dois pilares convenientes. Em primeiro lugar, no fetiche desmedido pelos super-heróis dos comics. As novas figuras tutelares da cultura pop já não desafiam as estruturas de autoridade; funcionam antes como a sua guarda pretoriana de luxo, limitando-se a gerir danos colaterais e a restaurar o statu quo. A mensagem subliminar passada aos mais jovens é inequívoca: perante a complexidade do mundo, a única salvação reside na entrega a uma elite extraordinária, dotada de poderes benevolentes e legitimidade inquestionável. (Até Batman, o eterno outsider, na versão mais realista até agora levada ao grande ecrã por Matt Reeves em 2022 e interpretada por Robert Pattinson, consegue estar a trabalhar lado a lado com a polícia!)
Em segundo lugar, quando Hollywood procura simular audácia crítica, refugia-se invariavelmente no bode expiatório da grande corporação gananciosa. É sempre um alvo seguro, totalmente inócuo. O recente (e brilhante) Coyote vs. ACME – um dos melhores exercícios modernos de "David contra Golias" – até esteve literalmente prestes a ser encerrado para todo o sempre num cofre pela Warner Bros. Discovery para servir como dedução fiscal em balanço contabilístico. Há de facto uma ironia suprema no facto de a indústria lucrar com a denúncia do capitalismo voraz enquanto gere as suas próprias obras com a frieza de quem apaga ficheiros para poupar impostos, mas essa crítica esquiva sistematicamente o verdadeiro monstro do nosso tempo: o corporativismo de compadrio, onde a megaempresa só sobrevive e asfixia a concorrência porque vive abraçada aos reguladores e subsídios do Governo. Convém nunca esquecer: qualquer isenção fiscal é, tecnicamente, um subsídio. Claro que o facto de os impostos serem altíssimos, e o mesmo poder político que cria o imposto inventar a seguir a isenção para os atenuar, é uma questão de (má) política fiscal.
Esta condescendência com o poder revela-se, de forma gritante, na assimetria escandalosa do escrutínio público e artístico.
O exemplo mais recente encontra-se com o que (não) se passa relativamente à Administração de Joe Biden. O evidente e progressivo declínio cognitivo de um presidente em exercício, a gestão autoritária dos mandatos da era pandémica, a teia de assessores a erguer um cordão sanitário em torno da Sala Oval, os perdões presidenciais preventivos no fim do mandato… Tudo isto teria dado direito a dezenas de sátiras impiedosas, minisséries dramáticas e investigações aprofundadas se o inquilino da Casa Branca usasse outra cor partidária. Mas como o imperativo moral da indústria era, e é, combater Donald Trump – com todos os imensos defeitos manifestos que este carrega –, o escrutínio jornalístico e cinematográfico simplesmente suspendeu-se.
Este vício de Hollywood em proteger os seus favoritos não nasceu ontem. É, aliás, a mesma condescendência histórica que consagrou John F. Kennedy como o mártir intocável e o herói supremo de Camelot. A cinematografia vendeu JFK como o modelo perfeito do estadista lúcido, vigoroso e progressista, mas o registo factual e documental revela um balanço recheado de falhas desastrosas.
Foi a fraqueza transmitida por Kennedy no desastroso encontro de Viena com Khrushchev, em 1961, que abriu a porta à agressividade soviética e encorajou a instalação de ogivas nucleares nas Caraíbas. Foi a sua hesitação fatal na Baía dos Porcos (o apoio aéreo faltou) que humilhou os Estados Unidos e empurrou definitivamente Cuba para a órbita soviética. A própria Crise dos Mísseis de 1962, cuja resolução é eternamente celebrada como uma vitória de nervos de aço, iniciou-se tarde demais por hesitações desnecessárias e terminou numa capitulação, à época, secreta: a paz foi comprada com a retirada oculta dos mísseis da NATO na Turquia e em Itália, fragilizando o flanco defensivo europeu apenas para salvar as aparências políticas da Casa Branca perante a sua opinião pública.
A tudo isto, o curto “reinado” de JFK na Casa Branca somou a escalada imprudente no Vietname, o aval tácito ao golpe que assassinou Ngo Dinh Diem e uma conduta privada compulsiva que roçava negligência de segurança nacional em plena Guerra Fria.
E, no entanto, Kennedy continua a ser o príncipe encantado do audiovisual, enquanto outros líderes são reduzidos a caricaturas do mal absoluto. A razão é simples: a cultura pop prefere a estética à substância e apaixona-se facilmente pela fábula do líder carismático que nos promete a Lua, esquecendo a fatura das suas fraquezas humanas e a realidade implacável dos incentivos políticos.
É precisamente deste vazio de memória crítica que nasce o perigo civilizacional mais agudo do nosso tempo.
Hoje, as gerações mais jovens encontram-se encurraladas numa pinça ideológica sufocante. De um lado, a sedução tecnocrática de um "Estado paizinho" que promete redistribuição total, subsídios infinitos e proteção garantida contra todas as incertezas da vida adulta. Do outro, uma nostalgia nacionalista que promete exatamente o mesmo paternalismo tutelar, apenas trocando o vocabulário social pela retórica da ordem e segurança. Ambos os polos partilham o mesmo princípio fundacional: a convicção infantil de que existem governantes suficientemente iluminados para planear a nossa existência ao milímetro, desde que pertençam à nossa tribo ideológica.
Chegámos aqui por várias razões. Mas também ajudados pelo facto de que o cinema e a televisão abdicaram de alertar como essa promessa de redenção pelo poder central sempre terminou. Pelo contrário. O entretenimento de massas (e grande parte da informação, também) foi ocupado por pessoas que dedicaram décadas a ilustrar – e muito bem – a monstruosidade hedionda do nazi-fascismo, mas mantiveram uma amnésia cúmplice em relação ao horror do planeamento central coletivista que foi responsável por ainda mais mortes do que o outro regime hediondo.
A violência burocrática dos gulags, a fome planificada do Holodomor, os milhões de mortos do Grande Salto em Frente de Mao ou os campos de extermínio do Camboja – já para não falar dos assassínios de Fidel Castro – nunca tiveram direito a um tratamento proporcional no imaginário popular.
Como estas ideologias se mascaram de boas intenções, de igualdade e de compaixão pelos mais fracos, a cultura pop trata o seu rasto de miséria como um mero desvio de percurso ou um azar de execução. Mas a História não deixa margem para enganos: a tirania não é um acidente de percurso do Estado omnipotente, é a sua consequência biológica e matemática. Quem detém o monopólio de nos alimentar detém, por definição, o poder de nos matar à fome. Quem nos garante segurança absoluta exige em troca a única moeda que verdadeiramente importa: a nossa liberdade individual.
É por isto que precisamos de resgatar com urgência o espírito de The X-Files. Não precisamos de teorias da conspiração delirantes incubadas em caixas de comentários, nem do histerismo tribal das redes sociais. Isso temos em barda, tanto que ensurdece. O verdadeiro valor daquela dupla residia na fricção fecunda entre duas virtudes esquecidas.
Por um lado, o instinto de Mulder: a recusa visceral em aceitar conferências de imprensa e comunicados oficiais como a verdade. Trata-se daquela intuição cívica fundamental de que, sempre que o poder declara estar a agir para o nosso bem, devemos redobrar a vigilância sobre os nossos direitos. Quantas vezes o tivéssemos feito durante a pandemia e muitas inconstitucionalidades não teriam acontecido, como o caso dos turistas detidos num hotel da Madeira sem ordem judicial, só para dar um exemplo…
Por outro lado, encontramos o método de Scully: o rigor empírico intransigente, a medicina forense e o compromisso inegociável com os factos, sem os quais o ceticismo degenera em demência, paranoia e ruído inútil. Tivéssemos um pingo desse raciocínio crítico e não andaríamos aos gritos de pânico de cada vez que aparece um hantavírus algures… Ou um empresário resolve dizer que a IA vai matar-nos a todos.
Os monstros do século XXI já não habitam florestas escuras, nem descem de naves espaciais. Vestem fatos cortados à medida, comunicam através de campanhas de relações públicas irrepreensíveis ou manifestos online, manipulam subtilmente os algoritmos do debate público e legislam a partir de gabinetes climatizados sobre aquilo que nos é permitido dizer, pensar ou consumir.
Há um facto que não mudou nestes 30 anos: a verdade continua lá fora. Mas para podermos começar a procurá-la, o primeiro e mais urgente passo é recuperar a coragem moral de olhar para quem nos governa – venha ele de fato cinzento ou bandeira desfraldada – e dizer: nós não acreditamos em ti.