Que literacia financeira é esta?

Paulo Guinote

Professor do Ensino Básico

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No início da semana, a caminho da escola, calhou ouvir uma rubrica radiofónica matinal dedicada a “pais e filhos” que abordava a questão da necessidade de literacia financeira dos jovens. O que em si mesmo não é um mal e até se transformou em conteúdo programático residente de uma disciplina curricular, como a Cidadania e Desenvolvimento.

Sendo a versão curta do programa, de escassos minutos, fui ouvindo a ver no que dava, até que, ao chegar perto do fim, uma das intervenientes (que tinha estado numa sessão que qualificou como muito gira e dinâmica, com alunos de 9.º ano), com um tom a descair para o divertido, referiu como era difícil explicar aos jovens a necessidade de planearem o futuro, nomeadamente quanto ao facto de - e passo a citar, porque fui ouvir o áudio para não atraiçoar a ideia - terem de encarar que “um dia eu vou deixar de trabalhar e, se calhar, vou ter uma perda de rendimento significativa e, portanto, qual é a poupança e como é que eu invisto, hoje, a poupança, tendo em conta este desafio que vou ter daqui a muitos anos”.

Lido assim ou ouvido à primeira, até parece coisa de elementar bom senso: avisar da importância de poupar para enfrentar os imprevistos do futuro. E foi assim que pensei nesse primeiro momento, até que reflecti um pouco mais e algo me surgiu de menos benigno naquela mensagem de poupança para jovens de 15 anos. Chamem-me o que quiserem, mas, à segunda audição, o que senti foi uma tentativa – consciente ou não – de preparar, desde petizes, os futuros cidadãos para não terem esperança na sua vida depois do período de trabalho, porque os seus rendimentos irão reduzir-se significativamente. E, já agora, que, mesmo durante a sua vida activa, não se entusiasmem muito, quais cigarras, que o Outono e o Inverno da vida estão à espreita e há que os preparar, pelo que o Verão não é para estroinar.

Repito que esta mensagem pode ter a melhor das intenções, mas a verdade é que veicula uma mensagem de aceitação e conformismo perante uma realidade que se apresenta como inevitável, da qual se retira a esperança não apenas na possibilidade de uma vida melhor do que a das gerações anteriores, mas até da possibilidade de lutar por isso, de conseguir um futuro alternativo menos sombrio do que o traçado a décadas de distância.

Achei isto triste e tão marcado ideologicamente quanto qualquer alegado excesso de certas formações ou doutrinações classificadas como woke por algumas tertúlias mais assustadiças quanto ao tratamento de questões de género ou sexualidade com adolescentes nas escolas. Porque uma coisa é ensinar a gerir as finanças pessoais (ou até familiares) desde a juventude, outra apresentar isso como um imperativo decorrente de um futuro incontornável, dividido entre décadas de trabalho e frugalidade, e uma velhice de miséria, caso não assinem um PPR logo que recebam o primeiro salário.

Podem dizer que isto não passa de prudente realismo ou pragmatismo, mas eu prefiro chamar-lhe apologia do conformismo e da desesperança num futuro melhor que se pretende negar às novas gerações, que deveriam ser formadas para lutarem pelo progresso e não para dele desistir.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico