Que fazer com o filme 'NAZA'? 

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1. A expressão "filme político” tem tido muitas vidas. Meio século atrás, era aplicada para separar o cinema (dito) de entretenimento do cinema (dito) de consciencialização política. Que consciencialização? Qual política? Creio que se tratava, e trata, de uma maneira redutora de considerar o trabalho cinematográfico (ou de qualquer outra arte narrativa). Para o melhor e para o pior, a minha geração foi parte ativa nessas vivências. Em termos pessoais, sinto que a herança que, por isso, transporto tem tanto de gratificante como de inseguro. 

2. Sou um espectador com dificuldade em lidar com um filme tão incontornável como NAZA, documentário britânico com chancela do jornal The Guardian, realizado pelos israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor. Distinguido com um Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza, organiza-se a partir de 24 depoimentos anónimos de soldados israelitas, registados durante a noite em terraços de Tel Aviv. Testemunham como foram parte ativa de missões em Gaza: embora oficialmente visando membros do Hamas, tais missões provocaram milhares de mortos civis — a sigla “NAZA” é um acrónimo militar da expressão “nezek agavi”, “danos colaterais”. 

3. Que fazer? De onde vem a minha dificuldade? Antes do mais, da resistência em lidar com o clima de crispação mediática, sobretudo televisiva, que passou a envolver muitas formas de tratamento da tragédia de Gaza e, em particular, da ressonância política deste filme. Como se se tratasse de ocupar um lugar “puro”, exterior à “impureza” de todos os outros. Qualquer reticência argumentativa em relação ao filme corre o risco de ser automaticamente, e inapelavelmente, interpretada como uma legitimação cega de toda e qualquer acção do governo de Benjamin Netanyahu. Ora, ninguém ignora que Netanyahu é acusado de gravíssimos crimes de guerra. Mais do que isso: os milhares de mortos em Gaza, a par das imagens da sua destruição, indignam profundamente qualquer olhar que conserve um mínimo de sensibilidade humanista. Resta saber se as convulsões mediáticas obrigam a dor dessa indignação a visar, sem recuo nem recurso, um país e todo um povo. Mais concretamente: identificar e recusar a política de guerra de Netanyahu não é o mesmo que aceitar uma demonização compulsiva de Israel. 

4. Há derivações deste problema que têm gerado episódios inócuos (a meu ver, entenda-se). Assim, se se procura algum tipo de pacificação de uma situação tão complexa como é a de Gaza (e de todo o Médio Oriente), que ganho haveria através do boicote da representação israelita no Festival da Eurovisão? Ou ainda: mesmo através de uma clara demarcação dos atos políticos de Jerry Seinfeld, fará sentido encará-lo como símbolo demoníaco daquela situação? Por que razão há protestos políticos que querem afirmar-se através da marginalização de determinados artistas ou práticas artísticas? Discordar passou a ser sinónimo de cancelar? 

5. De jornalismo importa também falar a propósito de NAZA. Antes do mais, por causa do carácter anónimo dos testemunhos que o filme apresenta. Compreende-se que os realizadores tenham querido proteger desse modo os soldados israelitas entrevistados. Mas como, e porquê, se passa dessa compreensão para uma visão “militante” de toda esta conjuntura que, em última instância, banaliza, contribuindo mesmo para silenciar, a memória do massacre perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023? 

6. Há um acontecimento que contamina tudo isto de forma perturbante e que, creio, importa reconhecer na sua obscena ambiguidade. Assim, no dia 15 de setembro, soube-se que o Hamas solicitou que os testemunhos ouvidos no filme NAZA fossem analisados pelo Tribunal Penal Internacional, pelas Nações Unidas e pelas organizações de defesa dos direitos humanos. A pergunta é: mesmo sendo tais testemunhos imaculadas verdades, devidamente provadas, desse modo responsabilizando o governo e o aparelho militar de Israel, como, em nome de quê, é possível aceitar silenciosamente que a sua avaliação seja “solicitada” por uma organização como o Hamas? 

7. Para lá de tudo isto, é um facto institucional que Israel possui um sistema democrático. O que, aliás, torna lamentável que o Estado israelita coloque a hipótese de retirar a cidadania aos realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor. Se há questão que justifica a união da comunidade cinematográfica mundial será o repúdio de tal medida, a par da expectativa de uma rápida difusão do filme nas salas de Israel. Seja como for, NAZA estará disponível a partir de novembro, de modo gratuito e global, no site de The Guardian — será mais uma via para, politicamente, continuar a pensar a sua narrativa e os respectivos efeitos. Em jogo está também a abertura de caminhos para um pensamento — corrijo: uma dinâmica de pensamentos — menos dependente dos automatismos mediáticos. 

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